• Tales Ferretti

uma cicatriz

Atualizado: 30 de Mai de 2019

Uma discussão interminável na cidade de São Paulo, que mobiliza arquitetos, urbanistas, e torna qualquer um especialista em gentrificação ou gestor público visionário. A polêmica do Elevado parece ser uma condição estabelecida em sua gênese.

Foto tirada em 2015 - Tales Ferretti

No auge do planejamento funcionalista, a estrutura monstruosa e desproporcional como tudo que foi feito sob o contexto nacional do regime militar-civil, e tendo como pai, o conhecido engenheiro, político profissional e então prefeito Paulo Maluf, é uma obra de celebração ao rodoviarismo moderno, que ainda se encontra muito arraigado nas questões dessa cidade.


O nome da estrutura já serviu de homenagem à ditador, e hoje figura com o nome do governante derrubado por essa mesma ditadura, um processo que só recentemente foi figurado, nos lembrando como somos complacentes com o domínio que nos é exercido dia a dia.


Nos dias presentes, o cerne da discussão gira em torno do Parque Minhocão. Bom, vamos lá...


O Plano Diretor Estratégico de São Paulo, Lei 16,050/2014 prevê no parágrafo único, artigo 375:

“Lei especifica deverá ser elaborada determinando a gradual restrição ao transporte individual motorizado no Elevado Costa e Silva, definindo prazos até sua completa desativação como via de tráfego, sua demolição ou transformação, parcial ou integral, em parque.”

Ou seja, há, previsão em lei que ele seja desativado como estrutura de transporte motorizado individual.


E sobre esse aspecto primeiro que é interessante se debruçar.


A nova ótica sob a via elevada começa a ser desenha já em 1976, 5 anos apenas após sua inauguração, quando começa programas de interrupção de tráfego no período noturno, em função das muitas reclamações postuladas pela população residente no entorno. Que se fosse ouvida, antes da implantação do projeto, obviamente não o teria aceitado, mas estamos falando de participação popular em um governo ditatorial militar, não é mesmo?


Com essas restrições de tráfego, fica claro o incomodo urbano gerado pela desengonçada estrutura. Seu fechamento aos veículos e abertura a pedestres como equipamentos de lazer só vieram a ocorrem nos últimos anos.

Foto tirada em 2015 - Tales Ferretti

Sob as vias, desde o momento de sua construção o que se viu foi um completo descaso com a cidade existente em nome da rápida fluidez veicular. Um rastro de desfiguração da paisagem foi a grande herança que o elevado deixou. Nas vias por onde se suspende, eram comuns canteiros centrais arborizados, praças e a nostalgia de uma São Paulo Art Noveau.

Por mais que se considere que a cidade fosse mudar, priorizar os carros, e renegar as suas heranças como fez em tantos outros pontos, é impossível não pensar como seria se esse enorme viaduto não tivesse saído do papel. Enfim, águas passadas.

O fato consumado de sua implantação gerou imediato furor na cidade, que anseia pela rapidez e eficiência nos deslocamentos, tal expectativa foi comprovada na sua inauguração. Pela primeira vez essa obra, que prometia um novo modo expresso de deslocamento, foi aberta. E o que aconteceu foi a cena que mais iria se repetir até os dias de hoje. Ficou completamente congestionado.


É uma obra que já nasce defasada. Sua gênese rodoviarista, suas dinâmicas urbanas, sua falta de respeito para com a cidade e sua agressividade com os moradores do entorno, estava tudo ali. Concentrado e gritante desde a sua inauguração.

A funcionalidade da metrópole estava comprometida. Suas disfuncionalidades estavam escancaradas.


Apesar de todo o trauma, a estrutura segue em pé, degradando o seu entorno e sendo teto para um problema social que nenhuma gestão pública tem a coragem de enfrentar que é cuidar das problemáticas dos moradores em situação de rua e dependentes químicos, e isso vira palco para falas higienistas tanto para os que defendem o Parque Minhocão, sua derrubada, total ou parcial ou até mesmo os que relutam em defendê-lo como como estrutura viária.

Porém, ao invés de abordarmos as “soluções” possíveis, sejam elas quais forem, é preciso lembrar de uma única coisa que não vemos ninguém levantar bandeira.


A gentrificação no eixo do Elevado já existe, é real e está em pleno curso de intensificação.


Como tema recorrente nas faculdades de arquitetura, alvo de concursos diversos ao longo dos anos, objeto de documentários entre tantas outras possibilidades, o Minhocão está em evidência. Os bairros vizinhos de Vila Buarque e Santa Cecília passam por notados processos de renovação de população, abertura de vários comércios, e os fenômenos das hamburguerias gourmet e Vegan Stores, atividades que detonam a mudança funcional desses bairros.


Pode-se tomar um café à R$2,00 na padaria tradicional, ou no mesmo quarteirão, degustar um Aeropress à frio do café gourmet tibetano colhido à mão pelos monges do Himalaia sob a sétima lua cheia do ciclo por módicos R$12,00. E no fundo, é café do mesmo modo. Entretanto, vemos que são realidades que estão em plena convivência, são alvos de populações diversas com rendas distintas que frequentam as mesmas comodidades urbanas. E possibilita que o jovem, que paga R$12,00 no café gourmet, tomar o pingado da padoca e ver que não é ruim, portanto, há uma parcela dessas populações que podem flutuar entre as realidades diversas da área. Porém, lembremos que essa diversidade não é equidade. O senhor que mora lá há 40 anos, não tem uma grande renda e, portanto, não tem a chance de comprar o café gourmet.


Essas realidades que hoje convivem, e não necessariamente consistem em um processo gentrificatório. Porém, há estudos iniciados que buscam entender exatamente até que ponto elas convivem, para então, consequentemente, a realidade mais rica expulsar a menos abastada e tradicional da área.


E é esse o ponto central.


Antes mesmo de consolidar a discussão sobre o futuro do Minhocão, é impossível não considerar possibilidades. E isso o mercado imobiliário já percebeu. A especulação sobre o futuro do Elevado escapou da escola, dos novos moradores, dos antigos habitantes e de seus transeuntes. A lógica exploratória do mercado foi rápida e voraz, tomou para si a busca dessa resposta de futuro. E é só andar pela Amaral Gurgel ou pela Gal. Olímpio, há canteiros de obras em toda a parte, quando não, os empreendimentos de 18 andares com 16 unidades por pavimento já estão prontos, sem qualquer fachada ativa ou gentileza urbana que amenize seu impacto grotesco na cidade.

Foto tirada em 2015 - Tales Ferretti

Está feito. A gentrificação na área já ocorre. E qual as medidas que o poder público está tomando? Nenhuma. Não é surpresa que a esfera pública de governo é submissa ao capital, seja por simples complacência, seja por negligência, ou por perversidade.


A simples especulação de futuro sob o destino do Elevado bastou para que os empreendedores do mercado imobiliário voltassem sua atenção para a região. Suas obras, algumas mais agressivas e outras com qualidade arquitetônica e urbanística (SIM! Elas existem e valem a pena ser conhecidas) participam de uma mesma lógica de reocupar áreas centrais, demanda já anunciada há tempos e também tema recorrentes nas instituições de ensino de arquitetura, que são benéficas para a cidade, porém, falta um componente.

As dinâmicas de renovação do estoque imobiliário nas áreas centrais são essenciais para a transformação da cidade, são benéficas se bem feitas e trazem qualificação espacial à áreas degradadas, porém é necessário que o poder público atue, não somente dando diretrizes para reocupação do centro como faz o PDE, ou estabelecendo as intensidades de uso e parâmetros edilícios conforme a Lei de Uso, Ocupação e Parcelamento do Solo, mas é imperioso que se entre na questão de garantir à quem já mora nessas áreas a sua permanência, estabelecer mediadas que não somente garantam a limitação dos preços dos aluguéis residenciais, mas que resguardem também os comércios já instalados.

Foto tirada em 2015 - Tales Ferretti

No país, tais medidas não encontram histórico ou paralelos, mas podemos aprender novos instrumentos de atuação do poder público. É necessário para que haja uma qualificação da cidade, e não somente deslocamentos internos de qualidade espacial aplicada. É preciso combater a gentrificação com instrumentos diretos e transformadores de realidade. O mercado imobiliário se encarrega de construir as novas habitações, ele nos diz isso a cada empreendimento ali lançado. Ele não precisa de incentivo ou ajuda para tal. Ele materializa sua incorporação a qualquer custo, desde que tenha lucro, e uma coisa precisa ser dita: ele vai ter esse lucro, os instrumentos de garantia de permanência habitacional e comercial não são contrários ou impeditivos dessa empreita imobiliária.


Posto isso, deixo para um artigo posterior as possibilidades de enfrentamento acerca do futuro do elevado e o quais seriam as “soluções propostas”. Porém é preciso lembrar que a degradação do nível térreo até o terceiro pavimento que o Elevado induz é simplesmente desumana.

Croqui do Elevado 2013 - Tales Ferretti

Trailer do documentário Elevado 3.5 de João Sodré, Maíra Santi Bühler e Paulo Pastorelo: https://www.youtube.com/watch?v=c3rUqKgl-yA&t=3s


Episódio da Série Arquiteturas, SESC TV - Minhocão: https://www.youtube.com/watch?v=1H0OXH6H4Wo


Documentário Ponto de Vista - Minhocão de Caroline Carvalho, Fábio Santana e Ingrid Mabelle: https://www.youtube.com/watch?v=FZrgLzHoKeU


Resistências e conflitos marcam a gentrificação em São Paulo por Caio Vitor, Rafael Paiva, Raphael Concli, Rodrigo Brucoli e Vitor Garcia: https://paineira.usp.br/aun/index.php/2018/02/07/resistencias-e-conflitos-marcam-a-gentrificacao-em-sao-paulo/


Gentrificação: um guia para não confundir com revitalização: https://socioeconomia.org/gentrificacao-um-guia-para-nao-confundir-com-revitalizacao/


Livro: Caminhos do Elevado - Memória e Projetos: https://livraria.imprensaoficial.com.br/caminhos-do-elevado-memoria-e-projetos.html

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© 2019. Baleia Urbana por Tales Ferretti