• Tales Ferretti

Sustentabilidade para quem?

Atualizado: 30 de Out de 2019

As cidades contemporâneas estão doentes, tanto ou mais do que as sociedades que as habitam.


O estado terminal nos é avisado desde os anos 60 do século passado quando as primeiras ideias ecológicas vieram à público. De um academicismo enraizado à moda hippie, a ecologia vem se transformando e ainda é um conceito relativamente novo e ganhou força ao longo das décadas seguintes, adquiriu conceito próprio e, nas últimas décadas, resultou em encontros nacionais e internacionais os quais objetivaram compreender a seguinte realidade e seus fenômenos: como combinar desenvolvimento econômico e sustentabilidade dos recursos naturais em um sistema produtivo pautado na constante expansão dos lucros (objetivo final do capitalismo) e somado à constante ampliação do mercado consumidor (sendo esse o caminho para tal fim), considerando a biosfera limitada em seus recursos (o ponto de partida para o mesmo)? Aurélio[1].


Nos moldes mais atuais a lógica do Eco é travestida sob a etiqueta da Sustentabilidade.


Primeiro resultado ao procurar Sustentabilidade no Google: Anúncio [pago] da Coca-Cola. Jura?

Essa nova terminologia tem como base o Relatório “Nosso Futuro Comum” – também conhecido como Relatório Brundtland –, cujo conceito central é o de desenvolvimento sustentável. Esse é definido como o desenvolvimento que satisfaz as necessidades das gerações atuais, permitindo que as gerações futuras também possam ter as suas necessidades satisfeitas.


E isso, em um entretimento mais profundo é a tentativa de “esverdear” o processo de produção, sem, no entanto, alterar as relações de consumo adotadas na sociedade como revela Aurélio[2].

O clássico tripé montado a partir do relatório Brundtland. Amenizando os impactos do capitalismo na finitude do planeta.

O significado de consumo é um ponto central no entendimento da sociedade em questão, e segundo a obra Vida para consumo: a transformação das pessoas em mercadoria, Zygmunt Bauman faz a seguinte diferenciação: o ato de consumir de consumismo.


O “consumismo” chega quando o consumo assume o papel-chave que na sociedade de produtores era exercido pelo trabalho. (...) De maneira distinta do consumo, que é basicamente uma característica e uma ocupação dos seres humanos como indivíduos, o consumismo é um atributo da sociedade. Para que uma sociedade adquira esse atributo, a capacidade profundamente individual de querer, desejar e almejar deve ser, tal como a capacidade de trabalho na sociedade de produtores, destacada (“alienada”) dos indivíduos e reciclada/reificada numa força externa que coloca a “sociedade de consumidores” em movimento e a mantém em curso como uma forma específica de convívio humano, enquanto ao mesmo tempo estabelece parâmetros específicos para as estratégias individuais de vida que são eficazes e manipula as probabilidades de escolha e conduta individuais. (BAUMAN)[3]


O significado de consumismo é então o resultado do processo alienatório ou de reificação dos atores sociais individuais, porém, esses não estão descolados de um novo anseio societário. Tal modelo, é, portanto, para Bauman, fruto da modernidade, que ele a denomina como sendo líquida.[4]

Charge de Arionauro - 2019

O fenômeno do consumismo tornou-se a força motriz da economia de mercado. A dinâmica do capitalismo exige, cada vez mais novidades, e estas devem ser absorvidas em quantidades cada vez maiores pelos consumidores.


Para compreender melhor esse entendimento é necessário voltar ao século XX, que viu brotar da relação antagônica entre desenvolvimento econômico e recursos naturais uma série de fenômenos famigerados e danosos ao meio ambiente, que indica uma essência: a de que o sistema econômico vigente é perverso quando se trata de ampliar lucros.

O desenvolvimento sustentável, conceito que se propõe a atenuar e amenizar essa essência, também é fenômeno, pois como afirma Kosik, apenas “indica a essência e, ao mesmo tempo, a esconde”.[5]


No cerne desse caráter, a superficialidade do discurso da sustentabilidade ambiental esconde o que está efetivamente por de trás dos danos à natureza: o caráter destrutivo do capitalismo.

Ao desconstruir o conceito de desenvolvimento sustentável é fundamental para compreendermos o caráter falacioso de tal proposta, tentando compreender os elementos que o tornam assim. Para muitos atores sociais, o desenvolvimento sustentável conseguiria organizar uma nova realidade, cuja relação desenvolvimento econômico e proteção ambiental fosse plenamente possível.


Essa faceta positivista em excesso do Desenvolvimento Sustentável corrobora para a criação de uma falsa consciência no amplo conjunto da sociedade após os anos 80 do século passado, e ela não permite observar, de modo claro e distinto, o caráter destrutivo do capitalismo.

Objetivos cunhados com base no "Desenvolvimento Sustentável" a partir do relatório da ONU.

O Relatório Brundtland falha miseravelmente em apontar alternativas ou simplesmente meio que desviem os rumos que os diagnósticos apontaram, em parte porquê qualquer projeto de sustentabilidade ambiental em escala mundial coloca o capitalismo em xeque, pelo fato de a realização do capitalismo se fundamentar na acumulação de lucro e dar-se-á pelo consumo social dos bens produzidos, conjuntamente, para isso se concretizar, a exploração dos recursos naturais é certa, e o próprio sistema econômico entraria em colapso.


A multipolaridade dos interesses nacionais e considerando as riquezas acumuladas dos países redatores não poderia resultar em outra coisa senão a admissão de um cenário apocalíptico, sem alternativas. E então, a partir da falta de perspectivas inerentes ao capitalismo, surge um discurso raso baseado na falta de esperança mundana e no sucateamento das relações humanas: o desenvolvimento sustentável. Tal fenômeno, revelar-se-ia como a principal fonte de recursos do processo de fetichização das mercadorias contemporâneas.


E a partir de tal compreensão, o habitar será o fenômeno correlato que será abordado.


As facilidades urbanas são os grandes atrativos da cidade. Desde a modernidade, a busca pelas oportunidades no meio urbano são a grande razão de suas relações migratórias. A lógica capitalista sobre o ordenamento territorial está instaurada. Se nas cidades antigas era comum as questões de localização, geográficas, disponibilidade de recursos naturais e tradições, aliadas fortemente às questões militares de estratégia e defesa, hoje o capital faz a localização.


Atribui valor. Significa através dessa atribuição de valor.


O moderno e sua visão liberal estabelece que as pessoas são seres sociais que desempenham certos papéis em determinados locais. Tais distinções funcionais por gênese social deveriam então ser cumpridas de acordo com as necessidades individuais, e por tal diversidade há então a premissa da liberdade do veículo automotor, como fator imprescindível para ser humano moderno desempenhar suas funções na sociedade. É inegável como a lógica moderna ainda pode-se aplicar na sociedade contemporânea.


Os adventos tecnológicos possibilitaram uma rápida transição da cidade que produz para a cidade que opera. Opera o capital e suas transações.

A cidade deixa então de gerar valor em bens e produtos, mas vai se tornando em si o próprio objeto do capital.


As relações contemporâneas da urbanidade com o capital se traduzem na oferta de serviços e na exploração dela própria como especulativo. Esse valor, que passa a ser atribuído ao urbano e à urbanidade gera diversos fatores de exploração do meio urbano. Como consequência evolucionista do mesmo modelo, a expansão das atratividades urbanas são cidades conurbadas, processos de metropolização, e redes de cidades interdependentes.


Considerando a transdisciplinaridades da cidade e seus agentes, pode-se também simplificar que a vida urbana é aquilo que se permite fazer nos territórios, de que modo e como são compartilhados. Tais atos experienciados na urbanidade são vivencias pessoais, mas que dependem de uma série de códigos condutores.


Então é possível promover cidades inclusivas, justas, eficientes, livres partindo dos valores comuns, aliados aos diversos campos e pautados por arcabouços jurídicos-urbanísticos que possibilitem o melhor desfrute, ordenamento e busquem combater a exploração indevida das riquezas e facilidades urbanas em função de uma sociedade mais participativa e atuante.


Porém, apontar os limites dessa abordagem mais positivista é também considerar reais os limites do sistema capitalista de produção espacial.


Slavoj Zizek infere que a permanente contradição ente o discurso pós-moderno, liberal e multiculturalista, e as práticas unificantes e globalizantes do mercado, por outro, revelam a retorica da diferença nada mais é do que a nova forma da ideologia no mundo contemporâneo[6].


As relações entre o espaço produzido no modelo capitalista, as relações econômicas e a sociedade fragmentada que os permeiam há de fato uma crítica unificante: uma crítica baseada não nas decorrências catastróficas capitalistas, mas que elas são inerentes ao próprio. Não há, portanto, capitalismo sem pobreza ou desigualdade. Ele só se impõe por meio da exploração dos mais pobres e miseráveis.


Fotos do Jardim Colombo - Tales Ferretti - 2019


Carlos afirma: Na contemporaneidade, a sociedade é dominada pelo econômico, de maneira que a acumulação se concretiza na produção de um espaço mundializado como tendência e momento de realização do capitalismo, apontando que a necessidade de superação dos momentos de crise se faz pela incorporação de novas produções ao processo de acumulação, dentre elas a do espaço urbano, que se efetiva com a hegemonia do capital financeiro.[7] A produção da metrópole como negócio se situa nesse contexto, dando novo conteúdo à urbanização contemporânea, na qual o espaço aparece como condição necessária ao processo de reprodução do capital, isto é, o capital só pode se realizar através da estratégia que torna o espaço um momento do processo produtivo.[8] A urbe passa a ser um negócio próprio. Expressa sob condicionantes locais mais financiada de acordo com os interesses globais, e vem dessa condição a égide determinista de competição entre cidades globais, que disputam entre si, não somente a atenção do capital financeiro internacional, mas tem como índice primário a sua capacidade de rentista de transformação do espaço.


Compreendemos que o desenvolvimento da economia é o pressuposto para o desenvolvimento das sociedades. Sem a melhoria das técnicas de produção e da geração de riqueza social, a evolução dos grupos humanos fica comprometida. Sobre isso, Chechin[9] afirma que o desenvolvimento, entretanto, não pode ser visto apenas pela ótica da economia.


Seu estudo tem como tema central a criatividade cultural e a morfogênese social. Trata-se de um processo em que os homens interagem com o meio no empenho de efetivarem suas potencialidades: satisfazendo suas necessidades e renovando suas aspirações.


Essas aspirações podem ser condensadas sob o selo da sustentabilidade.


Os novos produtos imobiliários são concebidos para sanar os anseios construídos enquanto sociedade, baseados nas expectativas funcionais, tangíveis e imagéticas. Tal atendimento é uma ciência pouco exata, pois é uma construção social sob os pilares de um fragmento de um mosaico coletivo, constituído tanto pela sociedade, pela sua retratação midiática e por seus fenômenos de espetacularização, segundo Guy Debord [10].


Na contemporaneidade, o espaço não é apenas presenciado, mas consumido. À medida que a cidade vai sendo preenchida pelos produtos imobiliários, como objetivos fetichizados, o significado de cidade como espaço coletivo, de reunião e aglomeração vai se esvaziando.

O avanço dos condomínios fechados é o maior exemplo disso. Eles passaram a concretizar uma valorização mercantil dos lugares, os quais são transfigurações em meras localidades, hierarquizadas segundo sua precificação no mercado de ativos de terras, ou exatamente pela indisponibilidade/escassez do terreno urbano.


O que antes se chamava de bairro, virou apenas um método agregador de instrumentos, no qual o bairro é a paisagem, que se não for agradável (deteriorado aos olhos do capital), é dissimulado pela “qualidade” do projeto do condomínio clube genérico, relevado ainda mais em função da expectativa de valorização futura e consequentemente do “embelezamento” do local.


No cerne da fetichização do produto imobiliário há a busca pela obtenção da sonhada qualidade de vida, que tem se tornado o mais abstrato dos atributos do habitar. Ela pode ser obtida então, pela lógica do condomínio fechado através da autossegregação. Naturaliza-se a negação da dimensão pública e coletiva da cidade, o morador se torna um usuário de um produto “exclusivo”, no qual sua relação com a habitação o transforma em consumidor do produto habitacional, que tem a obrigatoriedade de oferecer o lazer, o verde, a segurança e sobretudo o status de poder em morar em um condomínio que lhe ofereça tudo isso.

O consumo da """"""segurança""""" autosegregacionista em nome da qualidade de vida

Chegamos ao ponto que o “consumo” invade toda a vida, em que todas as atividades se encadeiam do mesmo modo combinatório, em que o canal das satisfações se encontra previamente traçado, hora a hora, em que o “envolvimento” é total, inteiramente climatizado, culturalizado. BAUDRILLARD[11].


O discurso sobre a sustentabilidade passa a ser incorporado entre os itens de exclusividade dos empreendimentos, embutindo neles o espectro do ecologicamente correto, como afirma Carlos [12].


A nova prática sustentável é o famigerado “consumo consciente”, que modifica uma construção social desde a modernidade, o cidadão é agora tratado como e apenas isso: consumidor. A certificação da construção civil é um nicho de mercado que cresce exponencialmente, pois, além de ser uma tratativa baseada em parâmetros pouco mensuráveis do ponto de vista pragmático, tornou-se mais um signo de fetiche. É notável que a certificação e os ideias de sustentabilidade seguem estritamente a lógica de consumo, e que para continuar se retroalimentando, precisa criar novos padrões de exclusividade e escassez.


Tal fenômeno é o ponto nodal onde o consumo toma o papel central da produção da vida social, o que esconde as relações de produção da sociedade, deixando intactos os pilares dessa sociedade baseada no consumo que é, fatalmente insustentável.

Sob a égide de proteção da natureza e do planeta, o indivíduo, que deixou de ser cidadão para se tornar consumidor, utiliza-se dos elementos embebidos de uma psdeudoconcretude dos argumentos ecológicos para mascarar as contradições inerentes do modo de produção capitalista.

Enquanto não revermos a gana capitalista como condição e consequência, crimes socioambientais da Vale e Samarco que atingiram as cidades de Brumadinho e Mariana recentemente serão recorrentes.


Citações:

[1] AURÉLIO, 2016, p. 14.

[2] AURÉLIO, 2016, p. 17.

[3] BAUMAN. 2008, p. 41.

[4] Bauman separa a modernidade em dois períodos: a modernidade sólida, surgida no século XVII e desenvolvendo-se até meados do século XX; e a modernidade líquida, formatada a partir de meados do século XX em diante. O que das diferencia é a segurança social produzida pelas instituições, a cristalização das normas, a duradoura estabilidade das condutas humanas. Na segunda nada é feito para durar. Da movelaria, ornamentação, vestuário, aos objetos mais caros, nada permanece. Não há segurança, cristalização, estabilidade. Tudo muda constantemente. É nesse contexto que Bauman afirma surgir a sociedade de consumidores, que se difere da sociedade de produção erguida até então.

[5] KOSIK. 2010, p. 15.

[6] ZIZEK. 2006. passim.

[7] CARLOS. 2018. Passim.

[8] CARLOS. 2018. p. 44.

[9] CECHIN. 2010. passim.

[10] DEBORD. 2000. passim.

[11] BAUDRILLARD. 2007. p. 19.

[12] CARLOS. 2018. p. 157.

Referências Bibliográficas

AURÉLIO, Carlos Sobrinho. A927f A falácia do desenvolvimento sustentável: uma análise a partir da sociedade de consumo. Tese de doutorado em ciências sociais. Marília: UNESP. 2016.

BAUMAN, Zygmunt. Vida para consumo: A transformação das pessoas em mercadoria. Trad. MEDEIROS, Carlos Alberto. São Paulo: Zahar. 2008.

BAUDRILLARD, Jean. A Sociedade de consumo. Lisboa, 2007.

CARLOS, Ana Fani A.; VOLOCHKO, Danilo; ALVAREZ, Isabel Aparecida Pinto. A cidade como negócio. São Paulo. 2018.

CECHIN, Andrei Domingues; VEIGA, José Eli da. A economia ecológica e evolucionária de Georgescu-Roegen. Revista de Economia Política, São Paulo, v. 30, n. 3, p. 438-454, 2010. Disponível em:

<http://www.zeeli.pro.br/Textos/ArtigosCientificos/2010/Cechin&Veiga%20-%20REP%2030(3)119%20jul-set2010%20(438-454).pdf>DOI:10.1590/s0101-31572010000300005.

DEBORD, Guy. Sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 2000.

KOSIK, Karel. Dialética do Concreto. Trad. NEVES, Célia; TORÍBIO, Alderico. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2010.

ZIZEK, Slavoj (2006). Arriscar o impossível. São Paulo. Martins Fontes.

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