• Tales Ferretti

sociedade e trabalho

Atualizado: 12 de Nov de 2019

A epistemologia da barbárie contemporânea possui 2 campos sintéticos que são estrutura e estruturantes para seu desenvolvimento e retroalimentação: a segregação e o trabalho.


Dada as condicionantes cíclicas do sistema produtivo falido que tem por excelência a reprodução continua, ininterrupta, acumulativa e que não admite estagnação, a geração de suas crises abruptas que desorganizam sociedades, governos e, portanto, Estados.

Porém, se isso é uma premissa de funcionamento da máquina, como apontando desde O Capital, não necessariamente isso se constitui como falha? É aí que mora o engano. Como excelentemente explanado por Dowbor, em a Era do Capital Improdutivo, as crises do sistema capitalista cíclicas e o tempo de duração dos ciclos vêm diminuindo exponencialmente, portanto as possibilidades de lucro, de realização do capital, de enriquecimento de fato, se assumem como mais escassas considerando a volatilidade dos mercados e a velocidade das transações.

A grande diferença que ocorre é que o sistema produtivo deixou de produzir.

O grande volume de transformações ocorrido na da era pré-industrial para a pós-industrial é que agora o capital não é um investimento, é aplicação financeira. A ruptura da realidade da transformação de mercadorias, bens, imóveis passa ser uma lógica de números virtuais, acumulação de zeros fictícios, e o lastro da riqueza acumulada é um papel sujo verdinho que rasga facilmente, mas virou o fetiche das pessoas.


Como contestar, perante a dura realidade cotidiana, de massivas jornadas de trabalho, a fé das pessoas em um objeto pífio?


Pois é isso que se chama de alienação.


O objeto fetichizado tornou-se a razão da vida.


Você não vive em função de si ou da sociedade, mas existe para acumular, comprar, aplicar e reproduzir essa mesma lógica.


No cerne do descolamento da realidade de viver está o trabalho. E na atual crise capitalista, o emprego acabou.

Construído durante séculos, o conceito de trabalho é um pilar da sociedade contemporânea para atribuição de valor à vida. O seu emprego vira sinônimo do seu sobrenome. Não?


Quem não tem salvo em sua agenda o contato de alguém como: Samara do Itaú?


A sua condição de trabalho/empregatícia virou a própria condicionante de reconhecimento perante a sociedade. E isso começa muito cedo:


- O que você vai ser quando crescer?

- Desenhista!

- Quero ver arrumar emprego com isso.


O quão comum virou adotarmos isso como um discurso padrão e diário, com crianças inclusive?


A crença na tecnocracia já ficou para o passado, na contemporaneidade há a fixação para a Datacracia. Tudo e todos podem ser resumidos pelos dados, os pessoais ou os que consomem.

O mundo dos algoritmos é real, mas virtual. Presente, mas de modo silencioso.


A crise do trabalho é marcada pela substituição das pessoas pela inteligência artificial, do Big Data e suas automações, aliados ao estilhaçamento dos vínculos trabalhistas mundo à fora pela GIG Economy, ou em português bem claro, economia dos bicos, também chamada de uberização.


O ideal positivista que assumimos nos é caro. Todas essas tecnologias foram implantadas com a mais calorosas boas vindas, e o mesmo aconteceu com todas as redes sociais.


Ao postar no Instagram, o seu almoço com os colegas de trabalho, que vieram ao restaurante mais comentado do momento, cada um em um Uber diferente, pois estavam em três pontos diferentes da cidade, cada um para um reunião de branding, briefing e aprovação dos seus contratos de marketing sobre a nova boneca que fala, do tempero pronto de sopa e da promoção leve 3 pague 2 do amaciante de roupas ... Imagine a quantidade de dados obtidos por todas as companhias envolvidas.


Continuando a historinha: veio a crise e nenhum dos publicitários foi poupado do corte da agência. Todos viraram motoristas de transporte por aplicativo e tornaram-se parte da solução de mobilidade urbana para as grandes cidades, não é mesmo?


Com todo o perdão do sarcasmo pela historieta fractal, mas é essa a essência da alienação contemporânea.


É absolutamente necessário que se entenda os conceitos de trabalho socialmente necessário, o que dá valor à mercadoria e as diferenças entre valor de troca e valor de uso.


Entender isso é autocrítica, é sair da própria bolha, para usar uma expressão millennial.


É possível um outro modo. É possível ter valores diferentes e ser capaz de criticar a sociedade atual em sua busca sem sentido.


Diferentemente da obra de Lemiski, que em 1987 publicava “Distraídos Venceremos”, a conjuntura atual não é nada favorável, nada receptiva e sem uma perspectiva que represente alternativa justa para a humanidade.


Sobre a égide das distopias vigentes, essa versão tosca de realidade rampeira e podre há a uma solução tida como fácil.


Aliás é o que tem sido saída para muitos países ...

Essa crise capitalista, estrutural e que atinge principalmente o emprego, tem sido cenário corriqueiro em alguns territórios, e teve como efeito a subida ao poder dos conservadores.


Não por acaso, o inimigo comum sempre é o vermelho.

Não por acaso, esse inimigo, acima de tudo, pensa.

Não por acaso, esse inimigo é cultural.

Reflitamos sobre isso...


Ocorre então a união de camadas de sociedade em nichos, cada vez menores, cada vez mais fragmentadas, onde não há diálogo, apenas postulados cegos sobre o que é o certo e errado.


Dualidade essa, que é definida, não contestada.


Mas sabe como é né...

E se?

Ao contestar não somente o trabalho como valor dignificante, mas a estrutura que o estabelece assim, temos então a quebra do próprio sistema.


No seio das desigualdades, o trabalho é o que difere sobreviver ou morrer.

Simplesmente trabalho? Então é só ter trabalho para todo mundo no mesmo sistema que nada mais importa?


Essa talvez seja um momento de uma resposta com o paradigma de Schrödinger. Sim e não ao mesmo tempo.


A razão da pobreza é ao mesmo tempo, os ricos ganharem demais e os pobres não ganharem nada.


Nisso, poderíamos formar dualidade durante dias, mas o ponto é: o Capitalismo só funciona sob o olhar do melhor.


Alguém sempre tem que estar melhor.


Não está claro?


É simples, não basta que algo esteja bom. Tem que estar melhor. Mas qual é o problema?


O melhor pressupõe a comparação.

Para algo estar melhor, algo tem que estar pior.

Não basta o bom, que é bom por si só.


Há a necessidade de algo ruim para algo ser melhor.


Como então propor acabar com as desigualdades se isso ocorre?


Ou seja, é possível entender que todo o discurso meritocrático cai por terra ao simplesmente subjugarmos o valor implícito nessa condição entre melhor e pior?

A desigualdade é premissa para o capitalismo.

Essa crise de emprego não é somente passageira, ou vamos nos rearranjar em uma nova economia fragilizada pelas relações de uberização do trabalho.

Não é normal.


Não está tudo bem!


É imprescindível que nos apoiemos na cultura, no diálogo e na discussão de rumos.


O entendimento deturpado de trabalho leva à segregação, ou seja, a subcategorização e a supervalorização do trabalho são condicionantes para fragmentar uma sociedade. Ao longo dos tempos essa distorção em relação ao trabalho leva a divisões paradoxais dicotômicas: trabalho braçal x trabalho intelectual; trabalho de homem x trabalho de mulher; trabalho formal x trabalho informal; trabalho de rico x trabalho de pobre.


Precisamos voltar ao entendimento de sociedade.


Isso é, somos todos integrantes, participantes, temos direitos, deveres, e não há espaço para a submissão enquanto trabalhadores, pessoas e cidadãos e portanto, como sociedade devemos nos reorganizar enquanto força produtiva, e não admitir mais a segregação, social, espacial racial, de gênero, de orientação sexual entre outras.


Os desvios dos conceitos de trabalho são os mais determinantes e estruturantes para o entendimento como sociedade, e precisamos rever essas deturpações porque colocamos em risco a própria existência humana.


Não é possível entender os mecanismos de funcionamento se não revisar em si próprio os valores cultivados. A filosofia nos coloca há tempos o seguinte desafio: Conhece a ti mesmo.


Uma sociedade fragmentada em função do trabalho e o medo em relação à perda de seus empregos é uma sociedade doente, disfuncional, que não tem a menor ideia do seu real poder em nome da obediência cega à preceitos que lhe foram impostos e nem perceberam.


Trabalhadores do mundo, uni-vos!

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© 2019. Baleia Urbana por Tales Ferretti