• Tales Ferretti

São Paulo OpenCity

A crítica sistemática é um processo de construção de pensamento, e nesse post a intenção é divulgar parte desse processo a partir do concurso Schindler Global Awards 2016-2017 que teve como local escolhido o CEAGESP e entorno, na Vila Leopoldina em São Paulo.

Os trabalhos foram julgados por profissionais ligados à área de arquitetura e urbanismo, como os brasileiros Ciro Biderman, Adriana Levisky, Carlos Leite, Elisabete França e os internacionais Hubert Klumpner, Paola Viganò e Kees Christiaanse, que estiveram reunidos no Brasil para avaliar os projetos e eleger os vencedores. No total, foram 10 meses de competição, mais de 400 projetos inscritos, com análise de mais de 150 trabalhos que representaram 46 países.

O trabalho vencedor é da equipe da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP que pela primeira vez uma equipe de fora da Europa venceu o Schindler Global Awards, algo inédito na história da premiação. O grupo, formado por Eduardo Ganança, Luiz Boschi Grecco e Jessica Luches e supervisionado pelo professor Fábio Mariz Gonçalves teve uma proposta muito parecida, nos termos do júri, com o projeto da FAAP - Fundação Armando Alvares Penteado, que foi agraciada com a 1ª Menção Honrosa|4ª Colocação Geral que será apresentada aqui.


Os alunos da FAAP que se destacaram no prêmio foram: Jorge Saliba Abdalla, Carol Almeida, Fábio Alberto Alzate Martinez, Renata Arcelli Doro, Fernanda Barreiros Rosa, Giovanna Lis Bellinello, Lívia Biaso Bacha Martins, Andrea Calderon Lama, Tales Eduardo Ferretti Pacheco, Isabella Ganme, Carolina Pessoa de Souza Bitelli e Eric Senedese.


O trabalho contou com a orientação dos professores Sergio Sandler, Marcelo Westermann, Marcio Coelho, Marcus Vinicius Damon, Wolfgang Sergio, Valeria Amaral, Rodrigo Serafino, Claudia Muniz, Sasquia Obata e Chico Barros.


São Paulo, Open City

No livro “Obra Aberta”, Umberto Eco propõe a ideia de transformações na cultura através da informação. A cidade, espaço de desenvolvimento cultural é visto como um projeto em continuação. Dentro dessas condições, as cidades contemporâneas, promovem novos fluxos e relações em diferentes escalas.


Esse trabalho aborda questões provenientes do conceito de quadra aberta como força motriz do desenvolvimento de novas possibilidades no espaço urbano. A proposta de um ensaio projetual para a reurbanização do CEAGESP coloca a oportunidade de refletir sobre a cidade, mais especificamente sobre a morfologia urbana do sítio paulistano, não apenas sob a ótica de seus problemas estruturais, aparentemente tão inevitáveis como a forma urbana que lhes corresponde, mas a partir dela mesma visando uma proposição alternativa à paisagem urbana que a constitui.

Por outro lado, o espaço urbano do sítio paulistano constituiu um espaço marcado pelo desequilíbrio entre público e privado, entre os espaços de agregação social – públicos – e aqueles referidos à esfera privada dos grupos familiares, com franca predominância do segundo.


Este ensaio enfrenta tal questão propondo a agregação dos espaços abertos da quadra, de modo a ampliar significativamente o espaço público disponível, em suas várias escalas.

Uma das mais candentes questões no campo do urbanismo é a relação entre público e privado. Áreas em processo de transformação tem sido objeto, em muitas cidades pelo mundo, de programas, linhas de financiamento, políticas públicas e parcerias com instituições privadas, no sentido de valorização do espaço público.

É preciso repensar a lógica das quadras e loteamentos dentro do espaço contemporâneo, dialogando com todas as suas preexistências considerando a relação dialética entre o sistema viário e a lógica do modo de organização dos espaços públicos e privados. Definir um parâmetro de urbanização não pode ser mais um desenho estereotipado, é preciso envolver o projeto da edificação. Arquitetura e Urbanismo se fundem de fato para compor esse modelo de desenho urbano, que é absolutamente mutável de acordo com o contexto onde será inserido e abrange uma diversidade grande de escalas.

A atualidade e a adequação desta forma quadra-lote privado, verdadeiro paradigma, são verificadas diante das demandas urbanas contemporâneas, nas diversas escalas, observando que o desenho do solo, isto é, o parcelamento do solo, determina formas e relações (fixos e fluxos) com o território.

A partir do desenvolvimento de um modelo de quadra, houve a articulação entre as ruas perimetrais do CEAGESP e o sistema viário proposto, de modo a conformar ligações eficientes e diretas, criando eixos de circulação na área com as transposições propostas. As dimensões das calhas da rua foram projetadas para comportar 2 faixas de rolamento veicular, ciclovia e calçadas amplas, além do desenho dos cruzamentos que priorizam os pedestres por meio da travessia em nível.

As significativas taxas de urbanização do Brasil implicaram o crescimento de grandes e médias cidades pela notável expansão das áreas urbanizadas, sem que isso tenha representado densidades compatíveis com as elevadas demandas por espaços urbanizados. Neste ensaio é central a ideia da densidade como diretriz estruturadora do espaço, em resposta à demanda acima mencionada.


O comentário oficial da comissão julgadora que está disponível no livro do concurso foi:


"Este projeto utiliza uma estrutura em quadra aberta para “reurbanizar” a área do CEAGESP.

A análise da situação atual, nas escalas regional e local, é apresentada no caderno técnico da competição, juntamente com as intencionalidades de desenho urbano.


Referências a áreas urbanas, teorias urbanísticas e fontes literárias são complementados por estudos específicos do local e planos urbanos oficiais. Atenção a um modelo holístico e inclusivo de desenvolvimento está presente em todo o design.


O valor cultural das estruturas existentes e marcos de patrimônio cultural e histórico são claramente priorizados. O transporte multimodal está incorporado ao projeto, desde novas ciclovias até uma reestruturação do transporte particular de veículos. Uma estrutura regular de quadras em grade é sobreposta no território.


Os edifícios são estruturados para alcançar permeabilidade e flexibilidade. Isso permite a criação de espaço público em todo o local, seguindo um cálculo de densidade por tipologia e uso. Um rol de árvores para os espaços verdes é delineada para o parque linear ao longo do rio, parte do foco geral do projeto em questões de clima e meio ambiente.


A linguagem de design clara e forte deste projeto atraiu a atenção durante todo o processo do júri. A tipologia de quadra aberta foi mencionada como referência à Cerdá por muitos, e de uma maneira que parecia apropriada. “Correto, responsável, interessante e bonito”, comentou um jurado e outro que foi “bem resolvido, convincentes ”. Contudo, alguns desejavam que o projeto assumisse mais riscos em termos de convenções de desenho.

O júri elogiou a apresentação por incorporar um “grau de profissionalismo raro em um concurso para estudantes.” e “integração de diversas modalidades transporte”, destacaram-se, juntamente com as decisões tomadas sobre o balanceamento da densidade com espaço aberto dentro das quadras abertas."


Abaixo, encontra-se a versão em português do caderno técnico elaborado originalmente em inglês para o concurso, explicando as propostas detalhadamente:


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© 2019. Baleia Urbana por Tales Ferretti