• Baleia Urbana

Positividade tóxica

Baleia voltou para as profundezas do mar pois não acredita que, imersa nos dilemas cotidianos desse ano, conseguiria promover boas e intensas discussões a respeito dessa realidade avassaladora que o dia a dia se tornou. Agora, perto de completar 300 dias reclusa nas fossas submarinas, tem algo pra cravar:


2020 foi uma grande merda. Foi. Foi e ponto. De novo.


Para além de todas as questões que aconteceram nesse interminável ano, que ao mesmo tempo passou voando, agora em seu final, apenas mais uma virada de folhinha, mais um ciclo natural que se reinicia, dia após dia, minuto depois de minuto, segundo atrás de segundo, começam as irritantes propagandas, matérias e reportagens sobre tirar o melhor de 2020...


Mermão... qualé a dificuldade de simplesmente admitir que esse ano foi ruim?

O que impede de assumirmos coletivamente que esse foi um ano de bosta, não pra mim, pra você ou para um grupo de pessoas, mas pros 7, 5 bilhões de efêmeros habitantes desse planeta redondo ?


Vira e mexe, algum engomado filósofo pop usa meia dúzia de palavras em latim, sem quaisquer pretensões acerca de digressões etimológicas que o justifiquem, ou seja, apenas como um recurso linguístico burguesóide e vazio, para dar ares sofisticados à uma série de questionamentos do cotidiano que não levam à lugar nenhum, ou melhor, acabam sempre na máxima da racionalidade liberal: " apesar de tudo, o que você, com seu esforço e mérito conseguiu crescer". Me dá nojo o espaço que esses boçais tem pra ficar ecoando falácias de autoajuda de quinta categoria e ainda serem tidos como bastiões de conhecimento...


Essa incapacidade básica de lidar com algo negativo é próprio dos nossos tempos, está incutido nos discursos, produtos e modos de vida que aderimos e que nos forçam a consumir.

A busca incessante por um felicidade plena, completa, duradoura e que tome todos os sentidos da sua existência é um produto do do capital. Essa jornada, a qual condiciona-se a vida só é possível se você se dedicar, trabalhar e fizer por merecer, tipo isso aqui:


O fetiche generalizado do século é a felicidade, que ao ser transformada em produto é consumível, trocável, oscila e pode até ser disputada nas bolsas ... Duvida? Fale pra um liberal que a bolsa não é nada mais que o jogo do bicho de playboy, pra ver se o chilique não bate forte ...


Voltando ao produto felicidade: a busca incessante por essa tal felicidade, colocada em um pedestal inatingível atingiu um nível tão absurdo de desejo que simplesmente a expressão desejo libidinal, a busca pelo gozo, nem é capaz de dar conta ...


E o quão doentia e doentes nos tornamos nessa busca pelo improvável( caberia aqui um impossível, se pensarmos dentro dos padrões do capitalismo) ?

Querer extrair algo bom de uma pandemia, com a romantização de resiliência e outros termos análogos (aqueles queridinhos dos "coachs") é no mínimo, indecente. Mas para o espírito livre da Baleia, indecência nunca foi parâmetro, pelo menos dentro das amarras de construções sociais ...


O ponto é: não há qualquer coisa boa que se possa retirar de uma pandemia.

Para que qualquer e todo item que for considerado um avanço tenha ocorrido, quantas vidas não se perderam ?


Admitir que 2020 foi simplesmente negativo, que não teve nada de proveitosos e que o luto de milhares de mortes deveria ser minimamente respeitado, isso sim seria um avanço.

Agora, a questão central está posta: o porquê dessa atitude "consensual" de que pode-se retirar algo bom desse ano tão horrível ?


Para a resposta, voltemos à esfera de produto e fetiche: qual a maior promessa que o capitalismo vende ? um futuro.

O capital, para além da sua acumulação irrestrita e infinita, tem como premissa a realização de um futuro. E que esse vai ser diferente, alegre e que você poderá consumir tudo o que sier e disfrutar de uma liberdade para fazer o que bem entender ...

Quando tratamos do neoliberalismo, um dos fatores dominantes do capitalismo atual é preciso ter claro que esse termo não representa apenas uma vertente, uma variável, ou que seja possível um outro capitalismo, mas sim uma racionalidade, preste atenção, Racionalidade. Portanto então tratamos não mais de um sistema intocável, de algo de rege de cima para baixo, tratamos aqui de um modo de vida, capilarizado, difundido e que permeia o mais íntimo das relações. Discorda ?

Veja como temos tratado cada vez mais sobre relações abusivas, que tratam, de esfera de abuso de poder, seja ele permeado por jogos da pisque ou físicos. Como temos tratado de relações tóxicas, a relação intrínseca de machismo, racismo, patriarcado e a construção e consolidação do capitalismo, não só como sistema, mas como mediador das relações humanas. [Dica da Baleia pra quem quiser aprofundar em uma leitura sensacional, no contexto de cenas culturais e o neoliberalismo: Realismo Capitalista - É mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo? - Mark Fischer]


A pandemia nos mostrou claramente a incapacidade de pensar no outro, para além da ascensão do conservadorismo, que por natureza é burro, facínora e sanguinário, a incapacidade de simplesmente encarar algo como de responsabilidade coletiva.


O globo se viu questionado, é agora que teremos que parar com a busca incessante do lucro (taxada de felicidade?), e meses depois, vimos que não, o mundo não puxou o tão necessário freio de emergência. Leia o texto aqui da plataforma: A libertação por um invólucro de RNA, era 15 de maio, e ainda estávamos no choque do que poderia ser a pandemia aqui.


Aliás, seguindo na tocada mais Aceleracionista (fica aqui a dica do Ep. 194 do Viracasacas podcast, para introduzir ao assunto), que amplificou ainda mais os processos de precarização, debilitação, fragilização, desestabilização de todo e qualquer trabalho, expondo milhões de pessoas à pura e efêmera sorte de contaminar-se ou não, pois foram considerados essenciais, sem necessariamente o sê-lo, e de tantas outras que simplesmente tiveram seus lares invadidos pelas múltiplas telas do trabalho remoto. Se você tá no corre nas ruas, sabe que a sorte é sua única aliada, além do álcool em gel e da máscara, e se você pôde ficar em casa, sabe agora o que é morar na mesa do trabalho. (Dica da Baleira: Eliane Brum no El País - "Quando o vírus nos trancou em casa, as telas nos deixaram sem casa").


A única medida, clara e sensata era fazer parar a máquina.


Aliás, governos, grupos e países que simplesmente flertaram com uma parada mais restritiva e necessária para conter o avanço do contágio, foram taxados de autoritários.(o que diz muito sobre o que pensa os grupos de mídia sobre um perspectiva anticapitalista, fiquem atentos crianças, não se emocionem com nenhum jornal, ou com qualquer meio que mesmo se dizendo ai independente, recebe um totó de bancos e publicidade de grandes empresas).

Essa parada não foi feita, em alguns lugares, seja dita a verdade, tivemos exemplos bons de combate e restrição verdadeira de circulação, sim, de pessoas que no caso, são os alvos e transmissores do vírus.


A liberdade sempre foi condicional, e não deveria ser um quesito a ser discutido uma vez que essa liberdade de um indivíduo gera a morte em potencial em tantos outros. Aliás, essa tal liberdade que nos vendem aí é puro suco de liberalismo tosco, uma verdadeira Liberdade de aluguel em uma promessa(falsa) de um futuro diferente. (Baleia ouve muito o Viracasacas: Ep. 190 - Liberdade de Aluguel)


Isso nos leva a pensar, diretamente ao que dá título à essa reflexão: a busca, libidinal, de desejo incontrolável por achar algo de positivo, e portanto amenizador de nosso sofrimento em um ano bosta, que deveria ter sido levado a sério, mas a certeza da busca pelo lucro incessante e infinito não deixou, é apenas um jeito de disfarçar as reais questões que nos impendem de estar com os nossos e sermos de fato felizes ?


Seriam os tentáculos do capital nos prendendo ainda mais para nos contentarmos com os restos das migalhas ?

Com certeza que não né, mores ...

Concluindo, o ponto dessa reflexão não é trazer algo de bom para tirar da pandemia, e que apesar dos desejos de que as coisas melhorem no próximo ano não vão valer de nada se ficar apenas nas simpatias, boas energias e votos de esperança na virada ...

Nada vai melhorar se continuarmos a externalizar, terceirizar e deixar pro universo mudar nossa realidade concreta.

Se organize, leia, debata, discuta.

Todos precisamos de ferramentas para ser anticapitalistas.

Quem quer alguma coisa de bom, sabe que não basta se isso for individual. Felicidade é coletiva, compartilhada, e não pra um grupinho, ok? Bora lutar para que ninguém mais passe dificuldade.



Lista de links do post:

Realismo Capitalista - É mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo? - Mark Fischer

Viracasacas Podcast:

#194 Aceleracionismo – com Moysés Pinto Neto

#190 Liberdade de aluguel – com Tiago Soares

#188 “Mark Fisher e o Realismo Capitalista” – com Victor Marques

Eliane Brum no El País - "Quando o vírus nos trancou em casa, as telas nos deixaram sem casa"


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