• Tales Ferretti

o projeto urbano

O projeto urbano contemporâneo parte necessariamente de uma constatação que a cidade não mais se expande, mas está envolvida em um certo processo de transformação interna, e partindo dessa lógica é preciso entender não só os agentes agora envolvidos, mas também as condições históricas que foram contribuindo para essa construção.

Rapidamente uma análise do cenário que levou ao sitio paulistano atual será desenvolvida, começando não pelas peculiaridades coloniais, a singularidade dos tempos imperiais ou as mudanças europeizadoras do republicanismo inicial. Partiremos da condição modernizante da cidade industrial, um ponto no qual a localidade de São Paulo é inserida com mais força nos sistemas reprodutivos do capital.


De forma à simplificar a atuação dos mecanismos em detrimento das especificidades da territorialidade inerente à escala da cidade, será desenvolvido sob a perspectiva que de modo geral, a cidade na era industrial era entendida como palco da atuação do sistema econômico para a geração de produtos e a circulação desses produtos gerava parte da riqueza, e a outra, era então destinada não somente à circulação, mas atrelada também ao seu consumo no próprio âmbito da cidade.


Assim temos na materialidade da urbe um plano cartesiano onde localização, proximidade à recursos básicos, matérias primas, e mão-de-obra são fatores interligados de maneira logística para contribuir para a eficácia do sistema produtivo. Portanto à produção do espaço é ordenado segundo a lógica capitalista de caráter fabril. E consequentemente, o conjunto edificado é resultado dessa lógica, desse ordenamento e obedece às prioridades produtivas, desse modo, as habitações são apenas suporte para a vida da mão-de-obra, e a cidade portanto tem uma função social quase que única de suportar essa produtividade e suas demandas secundárias.

O vídeo acima é uma produção americana, visando exaltar as qualidades da cidade em 1943, e claro, não devemos deixar de relembrar o contexto político-administrativo no qual essa produção foi feita.


Há nesse período a formação das dicotomias centro-periféricas, que irão perdurar, em termos, até os dias de hoje. Essas relações estão, portanto, necessariamente atreladas ao território e sua localização.


Avançando nos processos históricos, temos as condicionantes econômicas deixando de ser industriais, deslocando o até então pujante setor industrial para o protagonismo do comércio e serviços e novamente vemos a transformações das relações espaciais na cidade.


Como as infraestruturas tradicionais de base industrial deixam de ser determinantes, há a pulverização das questões de localidade e a virtualização dos recursos necessários com as evoluções técnico-informacionais.


As relações centro-periféricas, vão se consolidando e ao mesmo tempo se transformando, alguns passam a ser os famosos policentros da urbe paulistana, outros, mais vulneráveis, se configuram como favelas, loteamentos irregulares e afins, lembrando que muitas vezes, induzidos não só pela lógica capitalista da produção do espaço que é desigual e excludente, mas pela anuência do poder público resultante de um Estado que é aliado ao sistema produtivo ao compromete-se em retroalimentá-lo.

Bixiga Vista da 13 de Maio - Foto por Tales Ferretti -2017

Em substituição da cidade como plano cartesiano de localidades e funções, agora ela é palco para que os negócios ocorram. As centralidades beneficiadas serão dotadas com toda a estrutura necessária, além das tradicionais, como redes de alta capacidade de comunicação, transporte. Nesse novo tempo, a produção imobiliária tem um novo papel, abriga também a demanda pelos escritórios, além da habitação. A produção do espaço na cidade começa a ter um papel importante no desempenho da economia urbana.


A voracidade da incorporação imobiliária é um traço consequente derivado da ociosidade das grandes obras de infraestrutura, dominantes nas ultimas décadas. As grandes empreiteiras nacionais anseiam por novos horizontes e a expansão das grandes cidades e o processo de metropolização são expoentes concomitantes desse novo território a ser edificado. A cidade passa a ser palco dos negócios e, portanto, tem como um dos seus objetos de produção mais importantes o abrigo para os negociantes, é a espacialização financeira dos elementos que dão suporte ao sistema econômico-produtivo.


No momento posterior, começamos a ter não mais a cidade com suporte para a realização dos negócios, mas um entendimento que o espaço urbano é um negócio em si e, portanto, a produção do espaço é um momento dessa cadeia. Surge então não mais a cidade como resultado desse processo, mas sim como uma peça, um produto para ser consumido.


Assim, essa conjuntura evolutiva, os tempos atuais se constituem da financeirização do capital, a sua desvinculação do material se constitui no modo que atualmente ele opera, sem fronteiras e instantaneamente. Portanto, para concretizar-se em realização de fato, o capital financeiro transnacional encontra na produção do espaço contemporâneo sua finalidade como objeto, e permanecendo com o seu objetivo claro: a acumulação continuada.


“Na contemporaneidade, a sociedade é dominada pelo econômico, de maneira que a acumulação se concretiza na produção de um espaço mundializado como tendência e momento de realização do capitalismo, apontando que a necessidade de superação dos momentos de crise se faz pela incorporação de novas produções ao processo de acumulação, dentre elas a do espaço urbano, que se efetiva com a hegemonia do capital financeiro. A produção da metrópole como negócio se situa nesse contexto, dando novo conteúdo à urbanização contemporânea, na qual o espaço aparece como condição necessária ao processo de reprodução do capital, isto é, o capital só pode se realizar através da estratégia que torna o espaço um momento do processo produtivo.”

Ana Fani Alessandri Carlos – A Cidade como negócio – pág. 44.


A urbe passa a ser um negocio próprio. Expressa sob condicionantes locais mais financiada de acordo com os interesses globais, e vem dessa condição a égide determinista de competição entre cidades globais, que disputam entre si, não somente a atenção do capital financeiro internacional, mas tem como índice primário a sua capacidade de rentista de transformação do espaço.

Av. Santo Amaro - Foto por Tales Ferretti - 2016

“Sob essas condições, a metrópole se reproduz tanto como possibilidade de realização do ciclo do capital de produção da mercadoria tanto como matéria prima para efetivação do capital financeiro através do consumo produtivo do espaço. No plano social, a reprodução da metrópole se efetiva como fonte de privação: o sujeito destituído das condições de vida (em suas possibilidades criativas), visto que a reprodução da metrópole se orienta pela efetivação do valor de troca contra o valor de uso. No plano político, encontra-se o Estado, criando as condições de realização da acumulação através de politicas publicas capazes de superar momentos críticos.”

Ana Fani Alessandri Carlos – A Cidade como negócio – pág. 45.


Assim posto, temos a indagação conceitual necessária sob quais premissas deve-se elabora um projeto urbano. Há somente a necessidade então de atender as exigências e expectativas relacionadas ao capital financeiro? Se sim, quais seriam os mecanismos necessários para então garantir uma efetivação de construção do espaço ao invés de colaborar com um processo especulativo que vem deixando uma série de fragmentos territoriais e vazios urbanos na cidade?


As perguntas não terminam por aí mas podem ser sintetizadas e até simplificadas à esse ponto:

Se a produção do espaço é essencialmente capitalista, como fazer para humanizar e colocar os princípios sociais em primeiro plano?

Esse é o desafio do Urbanismo que entende que as desigualdades urbanas não tem solução sem uma modelagem segundo as necessidades sociais.


Essa conformação dos projetos urbanos, como produtos do capital financeiro transacional tem encontrado dificuldades no sítio paulistano. As operações urbanas demonstram isso. A OUC Faria Lima foi estratégica para a transformação daquela territorialidade, porém efetivou-se, de modo simples, a construção dos espaços para negócios como negócios, e as necessidades sociais, prontamente ignoradas. Um sucesso do ponto de vista do rentismo, um desastre para a tessitura social local.

Pompéia - Foto por Tales Ferretti - 2019

Constatadas essas perversidades, a nova geração das Operações Urbanas entra em vigor, em uma tentativa da efetivação das políticas públicas com a intencionalidade de promover uma transformação distinta daquela verificada até então, um reformismo claro, para então tentar atender as demandas sociais. Aguardemos os resultados.


Porém, propositalmente é imperativo que vislumbremos outras opções e oportunidades, afinal, qual é o projeto urbano que temos como referência em âmbito nacional? A simples inexistência dessa referência mostra que mesmo dando todas as condições necessárias para a vinda do capital mundializado, ele não se mostra interessado nesse território periférico do capitalismo excludente que é o Brasil.


Portanto, cabe ao livre exercício acadêmico a proposta de uma nova lógica. Não necessariamente inovadora, mas pelo menos que represente uma ruptura com a tradicional e conservadora maneira de estudar projetos urbanos, buscando assim, com base nas necessidades do território, das populações e a manutenção da tessitura existente, uma possibilidade de realizar essa referência de projeto urbano.

CEAGESP - Foto por Tales Ferretti - 2016


Livro: A cidade como negócio- Ana Fani Alessandri Carlos (Org.), Danilo Volochko (Org.), Isabel Pinto Alvarez (Org.) - Editora Contexto


Revista Móbile - Fevereiro de 2019- n16


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