• Tales Ferretti

Cultura e dominação

A famigerada apropriação do termo doutrinação cultural, fruto do deslocamento exponencial do espectro político à direita, traz a tona a necessidade de rememorar o quão descolada a sociedade contemporânea ficou. Tal expressão é comumente difundida pelos comunicadores de direita para evidenciar supostas induções coercitivas que levariam à um comportamento "esquerdopata", os quais consistiriam em pensamentos minimamente críticos à atualidade.


Obviamente não é plausível considerar a existência de um discurso neutro, ninguém aqui é tão ingênuo em sequer tentar buscar algo perto disso, e para comprovar, é necessário resgatar as influências formadoras políticas dessa sociedade que cada vez mais é tida como polarizada ou despolitizada.


E vale um adendo, para os que tecem o argumento que a dita polarização é ruim, aderindo à absurda expressão "nem esquerda, nem direita" ou similares é responsável diretamente pela disseminação da intencionalidade proposital da democracia burguesa e seus valores "humanísticos", lembrando que ideologias nazifascistas também se basearam no humanismo para pregar a superioridade racial.


Enquanto sociedade, sempre estivemos polarizados, a história da humanidade é a luta constante de classes, e quem não concorda, desafio a demonstrar o contrário, apontando em qual situação pudemos experimentar tempos de paz, plena equidade, e abolição de estruturas de dominação.


A intenção não é atacar a democracia, mas é importantíssimo questionar para quem ela funciona e por quem está sendo mantida, e como sempre, questionar e fazer críticas ao modelo e suas discrepâncias para com a realidade material não é simplesmente propor sua ruína.


Regressando ao exercício , que consiste em buscar referências aparentemente desprovidas de uma noção política mas que de fato refletem ideias de dominação e aculturamento forçoso. Parece um tanto quanto abstrato? Os exemplos vão dar a dimensão real do quando isso é palpável.

Começarei pelas brincadeiras da infância, em especial pelos jogos de tabuleiro:


Um exemplo clássico ocidental: Xadrez, onde os peões tem movimentos limitados e são os primeiros a serem elencados para o descarte, afinal não fazem a menor diferença não é mesmo?




Outro famoso, que permeou a infância de vários de nós: Jogo da Vida:



ao simular a caminhada do utilitarismo da vida contemporânea, nos é normalizado que para ter sucesso e vencer, precisamos acumular riquezas e ser um milionário no dia do juízo final, e para isso vale de tudo. Só não podemos perder e nos tornar um mero professor. Aliás, como nos bem lembra Ailton Krenak, tratar as crianças como serem incompletos que não são algo até crescerem com o famigerado o "que você quer ser?" é um ponto nevrálgico para nos entendermos enquanto seres humanos. Porque só teremos valor se formos algo que produza?


Mais um clássico, War:

Apesar de dispensar comentários, o que deve ser observado não é somente a questão da dominação inerente que está presente, mas também as diversas situações que acontecem ao jogar, para além das estratégias de guerra, alianças inimigos e a sorte lançada aos dados, ainda cabe que seria aceitável, uma vez que é a representação do mundo concreto e seus conflitos, porém chama-se aqui a atenção que um jogo desses é obvio e de grande circulação, porém, não há exemplo semelhante de um contrário, digamos que estimule a solidariedade, emancipação de cada povo ou rompimento dos limites políticos das chamadas nações para que possamos nos entender como irmãos... Difícil demais posicionar-se à esquerda mesmo, não?


Essa rápida passagem pode ser levada também para os inúmeros exemplos de jogos virtuais nas mais diversas plataformas. A questão em si não é problematizar individualmente como jogos e games influenciam, moldam e ajudam a estabelecer um discurso hegemônico, pois sim, sem dúvida alguma eles o fazem. A reflexão vai para como há um processo silencioso, disfarçado de mero entretenimento que cunhou o que chamamos de história, e esse processo não é nem de longe isento.


A história é escrita por quem a domina, pelos vencedores de batalhas e por quem dissemina suas ideias de modo arrebatador, não implicando necessariamente se isso é real ou não. A modernidade é marcada pela disputa da construção da história e da memória histórica, sendo utilizada como arma do poder político como instrumento de dominação e também de resistência.


Na luta de como encaramos os fatos e narrativas geradas a partir dele, ao assumirmos o compromisso de combate anticolonial, seja nas representações tradicionais ou em suas formas moderna e contemporânea do imperialismo, a também chamada decolonialidade nos diz que é preciso construir uma história a contrapelo, como diria Walter Benjamin em Teses sobre o conceito de história(1940), e edificar um olhar e um poder contra-hegemônico.


A tarefa não é fácil, nunca foi e nunca será. Mas nem por isso devemos nos esmorecer. Segue aqui então uma seleção feita com muito amor, esquerdismo e sangue vermelho pra combater culturalmente a hegemonia presente que não nos representa:


Para finalizar fica a dica também de dois filmes do cineasta baiano Glauber Rocha, um dos maiores do mundo: Deus e o Diabo na Terra do Sol, de 1963, e o seu maior clássico de 1967, Terra em Transe , que dispensa apresentações:







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