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Baleia recomenda: "A Última Abolição"

O Brasil possui o vergonhoso título de ser o último país a ter abolido a escravatura, e o fez de modo torpe, sem qualquer preocupação em inserir os recém libertos, seja no sistema econômico, seja nos ambientes sociais.

Suas consequências perversas são plenamente sentidas até hoje.


Baleia não pode deixar isso passar.


Como há anos é dito por Angela Davis: Não basta não ser racista, é preciso ser Antirracista!

Angela Davis no Ibirapuera - SP - 21/10/2019 - Foto por Joseph A. Ghosn

E antes que haja uma certa tendência de basear essa dica em um dito famoso da anticapitalista, comunista e antirracista norte-americana, a qual o seu papel na história recente é celebrado e reverenciado, é absolutamente preciso e necessário relembrar a história nacional e o pano que encobre os protagonistas das figuras brasileiras que lutaram nesse processo histórico de abolição da escravatura.


José do Patrocínio, Joaquim Nabuco, André Rebouças, Luiz Gama.


Alguns nomes que são conhecidos ou apenas reconhecidos como patronos de algumas ruas e avenidas da cidade...


Seria esta uma homenagem justa à suas memórias e lutas?


Apesar do protagonismo inegável dessas figuras, todos atuaram em campos políticos e jurídicos, articulando movimentos, levantes e manifestações populares e meios de divulgação da causa. Entretanto, a história, dentro do discurso hegemônico patriarcal dá preferência aos homens e a esses meios dominados (até hoje) pelas figuras masculinas.


Porém, ao procurar só um pouco, é possível notar a essencial presença feminina nessa luta.


Dandara, Adelina Charuteira, Maria Felipa de Oliveira, Esperança Garcia, Zeferina, Francisca, Mariana Crioula, Rainha Tereza do Quariterê, Tia Ciata, Luiza Mahin e tantas outras.


Mulheres que assumiram o protagonismo de luta por sua liberdade, e não só, ao evidenciar suas relações sociais, pode-se perceber que exerciam o papel libertário dentro de suas influencias e muitas delas, pautadas nas organizações chamadas irmandades, que vieram a ser conhecidas posteriormente como os terreiros de religiões de matriz africana.

O que a historiografia tem feito foi exaltar os números e feitos atingidos pelos homens, que, como já citados, atuavam nos meios político e jurídico principalmente, e por tal condição, inclusive de natureza documental, tem suas atividades enquanto figuras públicas, facilmente divulgadas.


Já as mulheres, não por falta de documentação, foram invisibilizadas dentro desse processo de construção histórica. Afirmar o protagonismo do feminismo negro dentro do movimento abolicionista é também abalar as estruturas do progressismo instituído que é fortemente patriarcal tal qual o modelo de sociedade que visa combater.


Portanto, para melhor aprofundar tal discussão, Baleia recomenda: “A última Abolição”. Dirigido por Alice Gomes, o documentário tem produção da Gávea Filmes e foi recém exibido na rede paga de televisão. O longa aborda a escravidão no Brasil com especial enfoque no período da abolição, destacando os movimentos abolicionistas; a resistência escrava e estratégias de luta dos escravizados e libertos; o papel das mulheres negras na resistência; as discussões da elite política e cultural do país no período; culminando com a assinatura da Lei Áurea e suas consequências para a população negra do Brasil pós-abolição aos dias de hoje. Ao mostrar o protagonismo do povo negro na luta por sua libertação o documentário contribuirá para o debate da história brasileira e da formação da nossa cultura, jogando um novo enfoque no tema e fortalecendo o combate ao preconceito racial.

E todo branco, não signatário desse contrato social racista precisa ser radicalmente antirracista, não há portanto, meio termo, uma posição moderada ou intermediária. Cabe a todos nós, integrantes dessa sociedade, lutar e combater as desigualdades e discriminações que ocorrem diariamente.


Não adianta endossar apenas discursos sobre igualdade, sabendo que mesmo de mão dada na causa, o Estado opressor vai balear primeiro o negro.


Na música, há diversas canções-manifesto que abordam essas perspectivas de luta e resistência, e atualmente uma cantora tem se destacado pelas letras incisivas e uma leitura de contexto que poucas vezes se viu, para os que ainda não foram abalados, apresento Bia Ferreira:


A hora chegou, é preciso tomar posição.


Encerro com as palavras do poeta palmarino José Carlos Limeira, no poema Insônias:

Insônias


Saudades das Tuas noites fogueiras que eu não vivi Palmares, Estado Negro... (vivo pensando em ti)


Como não estar Na podridão do Mangue nas ratazanas da zona na multidão de bucetas infectas como não estar no barulho da britadeira Na comida azeda na marmita fria como não estar na fome do meu filho Já nascido com jeito de morte como não estar no lixo das madames no cheiro da gordura da pia nas bostas dos barões boiando na latrina como não estar no trem lotado, no barraco caindo No camburão na porrada nos dentes no lodo do fundo de cada cela Como, se tudo isso sou eu?


Quilombos, meus sonhos sofro de uma insônia eterna de viver vocês


Vivo da certeza de renascê-los amanhã,


Se um distinto senhor vier me dizer para não pensar nessas coisas vou ter de matá-lo com um certo prazer.


Por menos que conte a história Não te esqueço meu povo Se Palmares não vive mais Faremos Palmares de novo.

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© 2019. Baleia Urbana por Tales Ferretti