• Karoline Rodrigues

Aceite seu Exu. - A verdade sobre nossa origem.


Tá. Antes de mais nada, se você vê minha foto no final do texto, já sabe que esse não é “lá meu lugar de fala”. Todavia, eu penso que assim como homens pré-dispostos e aliados à causa feminista podem e devem se expressar sobre tal causa (desde que entendam o seu lugar na situação), com as mesmas ressalvas, pessoas pessoas “brancas” também podem e devem falar sobre racismo. É só uma questão de saber quem é protagonista e quem é aliado. E por que é que coloquei aspas na palavra brancas? Porque todos nós temos uma visão muito eurocêntrica das coisas. E apesar de eu amar os filósofos, a mitologia e várias outras coisas greco-romanas trago noticias: Estamos muito mais próximos de Oxalá do que de Zeus ou de Jeová.



Ok, eu sei que crença é algo individual, mas o que eu quero realmente dizer com isso é que: de acordo com o Relatório de Território brasileiro e Povoamento do IBGE 1500 até 1991 o número aproximado de portugueses que vieram para o Brasil é de pouco menos de 2,5 milhões, enquanto isso só entre os séculos XVI e meados do XIX, vieram cerca de 4 milhões de negros (o equivalente a mais de um terço de todo comércio negreiro) vieram para o Br. Ok, mas e se somar os outros europeus? Como Italianos e Franceses? Bom, se compararmos todas as etnias que vieram, inclusive com o índios que já estavam aqui, ainda sim o povo preto é a maioria. Isso porque estamos falando dos vivos… Porque de acordo com a BBC mais de 670 mil pretos morreram no caminho.


Outro fato histórico que eu não posso deixar de comentar é que: a gente mostrou pro mundo o que é escravidão. Somos o país que mais trouxemos escravos e fomos o ultimo pais a abolir a escravidão, que tudo isso você pode conferir no “A ultima abolição” que aqui na baleia tem uma ótima resenha e eu não vou ficar falando disso de novo.


Como aqui minha função é dar uma traduzida no que acontece no legislativo e no judiciário eu vou só fazer uns pontinhos e vocês tratem de ligar ok?

  • Assim como Exu, a Imperatriz Leopoldina que eu tanto falo bem aqui não é lá bem o que parece. Leo veio da Áustria, e quando ela assinou a independência em 1822 junto com Pedrinho, ela negociou com Portugal em pagar uma “quitação por perder uma colônia” e a loiríssima emprestou esse dinheiro da Áustria, fazendo assim nossa primeira dívida externa. E enquanto isso, no mundo aconteciam a Revolução industrial, a Revolução Francesa e um monte de outras revoluções que questionavam os princípios da liberdade, fraternidade e igualdade (a base dos direitos humanos). Bom D.Pedro I se negou a ter um parlamento e outrorgou a primeira constituição em 1824, onde ainda existia escravidão, porque “alguém tem que trabalhar pra pagar essa dívida né?”



  • Em 1850 rolou a “Lei de terras” que é basicamente o seguinte: O império inaugurou o cartório, e deu uns lote de terra para os amigos da nobreza.


  • 1871: Lei do ventre livre: Que de livre não tinha NADA, afinal os nascidos dali em diante tinham que trabalhar até os 21 ou 30 anos ao dono da mãe, para pagar a liberdade que o Estado ofereceu (do pai ninguém quer saber, porque as vezes é o próprio dono da escrava). E depois dessa idade não havia política de liberdade.

  • Lei Aurea: Em 1888, a escravidão do Brasil acabou. E tem o tal marco da última abolição e política nenhuma de “ressocialização” e liberdade.


  • 1889, exatamente no ano seguinte a abolição, o código penal brasileiro começa a punir e aprender práticas feitas em público como: andar descalço. praticar capoeira e cultuar santos não cristãos (e pra quem não sabe, Exu é um dos poucos “santos” que as religiões de matriz africana cultuam fora de suas casas, também chamado de casuá). Sem contar que nem terra e casa os "ex" escravos tinham, afinal lá em 1850 já tinha acontecido uma distribuição lembram? E se liga na punição:

Art. 43. As penas estabelecidas neste codigo são as seguintes:

a) prisão cellular; b) banimento; c) reclusão; d) prisão com trabalho obrigatorio; e) prisão disciplinar; f) interdicção; g) suspensão e perda do emprego publico, com ou sem inhabilitação para exercer outro; h) multa.

Art. 44. Não ha penas infamantes. As penas restrictivas da liberdade individual são temporarias e não excederão de 30 annos.

Agora vamos fazer uma conta hipotética rapidinho: O cara saiu em 1888 já com uns 20 anos e com seus costumes, sem nenhum conto de réis, sem casa… E aí por estar na rua descalço praticando algum costume que adquiriu em 20 anos, podia ser preso e pegar 30 anos de reclusão, quando a expectativa de vida era menor que 45 anos. Essa lei só foi retirada do código na Era Vargas em 1936.

Em suma, passamos a prender o povo preto após a abolição durante 37 anos. E acabou?

Art. 59. Entregar-se alguém habitualmente à ociosidade, sendo válido para o trabalho, sem ter renda que lhe assegure meios bastantes de subsistência, ou prover à própria subsistência mediante ocupação ilícita:

Pena - prisão simples, de quinze dias a três meses.


  • 1967 a ONU mexe os pauzinhos em só em 1969 a gente faz uma lei apoiando a Discriminalização Racial.

VAMOS FAZER UM PARÊNTESES GRANDÃO.

Discriminalização: substantivo feminino Ação de discriminar, de segregar alguém. Descriminalização: ato jurídico de isentar de crime ou de excluir a criminalidade ou injuridicidade de um fato.

Bem, se depois de tudo isso, você não entender sobre ressarcimento social, porque precisamos de cotas e porque ainda há um preconceito com a raça. Eu não sei mais o que dizer.



Quer saber mais?


  • Seletividade Penal na Guerra as Drogas: Aqui

  • Racismo, coisa de gente que se acha branco: Aqui

  • Sessão Porrada de CRIMINOLOGIA CRITICA: Aqui (faz igual no Netlix e maratona que rola)

  • 5 .doc pra ver no Netflix: Aqui

  • Beccaria falando de duras penas: Aqui

  • Por que Exu não é o Diabo: Aqui



21 visualizações
  • Facebook - White Circle
  • Instagram - White Circle
  • Twitter - White Circle

© 2019. Baleia Urbana por Tales Ferretti