• Tales Ferretti

A libertação por um invólucro de RNA


Pandemia significa: Doença que ataca ao mesmo tempo muitos indivíduos na mesma localidade, ou a maior parte dos povos do globo (segundo Dicionário Aurélio).

Uma palavra talvez baste para definir o contexto dessa reflexão a seguir.

Aos vivos, o ineditismo da situação, a história sendo feita e contada em tempo real, sobre as vias instantâneas da comunicação global. Aos mortos, nada mudou, são mais uma vez tratados como mera estatística, como qualquer outra tragédia que se desenvolve na existência do homo sapiens.


É conformado então, o consenso, de que estamos em guerra. É preciso ficar atento, alertam. O inimigo está no meio de nós. E avança, implacavelmente, sob todos os territórios, invade fronteiras, supera Estados, arrasa corporações, e acaba com a vida humana, com nada mais do que a simples multiplicação celular de células prejudicais aos indivíduos dotados de maior capacidade do planeta.


Olhares de ódio são lançados, quem será o responsável? Quem é o culpado por todo o transtorno que está sendo gerado?

Como não achar um ser sequer para quem possamos apontar o dedo e aliviar a dor e o temor que todos nós estamos sentindo?

Governantes, cientistas e médicos, digo, os sérios e comprometidos em algum grau com a vida, esses alertam, é preciso recolher-se, é preciso isolar-se. Nunca antes isso fora preciso. Não na Era globalizada e interconectada. Aliás, convenhamos, que isolamento social bem interativo estamos tendo, não é? É de reconhecer todas as facilidades que a ultra velocidade das conexões digitais está amenizando bem todas as mazelas de quem pode ficar em casa nesse momento.


A metáfora da situação de guerra, adotadas principalmente pelas classes profissionais acima citadas, é de certa forma, simplista e de algum modo reconfortante, digna de estudos filosóficos e antropológicos (especialmente sobre os discursos, de mídia, de informação, e de todo o léxico que vem sendo usado em relação ao enfrentamento, ou combate ao COVID-19).

Do mesmo modo que traz essas sensações, a narrativa que há um inimigo a ser combatido, é na verdade uma falácia de interpretação.

É preciso lembrar que essa coisa, que é apontada como um inimigo, mas somete diante de um microscópio de alta resolução e que nem pode ser chamada como algo vivo é, sem maior explicação, um freio de emergência necessário. Sim, o novo corona vírus, vem pra nos lembrar que o velho está morrendo e o novo ainda não pode nascer. Nesse interregno, uma grande variedade de sintomas mórbidos aparece, como disse Gramsci.[i]

Diógenes de Sinope, um refugiado de sua terra natal, muda-se para Atenas, mas encontra dificuldades e acaba por se tornar um morador em situação de rua. Acompanhado de seu barril e cães, pôs-se a fazer questionamentos a respeito do mundo que o cercava. Para àqueles que o conhecem, ou pelo menos o princípio de sua obra, diria que esse tal de COVID-19 é nada mais do que algo que nunca quisemos, mas precisamos muito. Nesse espírito, um texto de autoria desconhecida circula pelas rápidas abas, guias e postagens da internet, e parece ter sido escrito diretamente por Diógenes, o Cínico:


O Monólogo do Vírus.

Eu vim parar a máquina cujo freio de emergência vocês não estavam encontrando.

Queridos humanos, parem com os vossos ridículos apelos à guerra. Parem de me lançar esses olhares de vingança. Desliguem a aura de terror com que embrulham o meu nome. Nós, os vírus, desde a origem bacteriana do mundo, somos o verdadeiro continuum da vida na Terra. Sem nós, vocês nunca teriam visto a luz do dia, nem mesmo a teria visto a primeira célula.

Nós somos os vossos ancestrais, como as pedras e as algas, e bem mais do que os macacos. Nós estamos onde vocês estão e também onde não estão. Que pena que apenas reconheçam no universo aquilo que se vos assemelha. Mas, acima de tudo, parem de dizer que sou eu quem vos está a matar. Não estão a morrer por causa do que estou a fazer aos vossos tecidos, mas porque deixaram de cuidar dos vossos semelhantes. Se vocês não tivessem sido tão vorazes uns com os outros como foram com tudo o que vive neste planeta, ainda haveria camas, enfermeiros e ventiladores suficientes para sobreviver à devastação que causo nos vossos pulmões. Se não armazenassem os vossos velhos em casas moribundas e os vossos cidadãos saudáveis em ratoeiras de concreto armado, também vocês não estariam lá. Se não tivessem transformado a ainda ontem exuberante, caótica, infinitamente povoada amplitude do mundo - ou melhor dito, dos mundos - num vasto deserto para a monocultura do Mesmo e do Mais, eu não teria sido capaz de me lançar à conquista planetária das vossas gargantas. Se durante o último século não se tivessem convertido praticamente todos em cópias redundantes de uma mesma forma insustentável de vida, não se estariam a preparar agora para morrer como moscas abandonadas na água da vossa civilização adocicada. Se não tivessem transformado os vossos ambientes em espaços tão vazios, transparentes e abstratos, podem ter certeza que eu não estaria a mover-me à velocidade de um avião. Só estou a cumprir a sentença que vocês próprios pronunciaram há muito tempo. Perdoem-me, mas tanto quanto sei, foram vocês que inventaram o termo ’Antropoceno’. Reivindicaram toda a honra da catástrofe; agora que ela está acontecer, é tarde demais para renunciá-la. Os mais honestos de vós sabem bem disso: não tenho outro cúmplice que não a vossa própria organização social, a vossa loucura da ’grande escala’ e da vossa economia, o vosso fanatismo do sistema. Apenas os sistemas são ’vulneráveis’. O resto vive e morre. Só há vulnerabilidade para aquilo que aspira a controlar, para a sua própria extensão e perfeição. Olhem para mim com cuidado: sou apenas a outra face da Morte que reina.

Por isso, parem de me culpar, de me acusar, de me perseguir. Parem de paralisar-se perante mim. Tudo isso é infantil. Proponho-vos que mudem de visual: há uma inteligência imanente na vida. Não precisam de ser um sujeito para ter uma memória ou uma estratégia. Não é preciso ser-se soberano para decidir. As bactérias e os vírus também podem fazer com que chova ou que faça sol. Olhem para mim como o vosso salvador e não como o vosso coveiro. São livres de não acreditar em mim, mas eu vim desligar a máquina cujo freio de emergência vocês não encontram. Eu vim suspender a operação da qual vocês são reféns. Eu vim expor a aberração da ’normalidade’. « Delegar noutros a nossa alimentação, a nossa proteção, a nossa capacidade de cuidar das nossas condições de vida tem sido uma loucura…Não há limite orçamental, a saúde não tem preço: vejam como faço os vossos governantes, como o Emmanuel Macron, retraírem-se nas palavras e nos atos! Vejam como os reduzo à sua verdadeira condição de comerciantes miseráveis e arrogantes! Vejam como de repente se revelam não só como supérfluos, mas como nocivos! Para eles vocês são apenas o suporte da reprodução do seu sistema, ou seja, vocês são menos que escravos. Até o plâncton é tratado melhor do que vocês.

Mas não desperdicem as vossas energias reprovando-os ou atacando as suas limitações. Acusá-los de negligência é dar-lhes mais do que eles merecem. Perguntem-se antes como pôde parecer tão confortável deixá-los governar. Louvar os méritos da opção chinesa por oposição à opção britânica, da solução imperial-legitima por oposição ao método darwinista-liberal, é não entender nada de um ou outro, nem do horror de um ou outro. Desde Quesnay, os ’liberais’ sempre olharam invejosamente para o Império Chinês; e continuam a fazê-lo. Eles são irmãos siameses. Que um vos confine para vosso próprio bem e o outro para o bem da ’sociedade’ consiste em esmagar, de forma equivalente, o único comportamento não-niilista neste momento: cuidar de si mesmo, daqueles que amamos e do que amamos naqueles que não conhecemos. Não deixem que aqueles que vos levaram ao abismo finjam tirar-vos dele: eles só vos prepararão um inferno mais perfeito, um túmulo ainda mais profundo. No dia em que puderem, patrulharão o além com os seus exércitos.

Agradece-me, sim. Sem mim, por quanto mais tempo fariam passar como necessárias todas estas coisas aparentemente inquestionáveis, cuja suspensão é imediatamente decretada? A globalização, as competições, o tráfego aéreo, as restrições orçamentais, as eleições, o espetáculo das competições desportivas, a Disneylândia, os ginásios, a maioria das lojas, o parlamento, o encarceramento escolar, as aglomerações de massas, a maior parte dos trabalhos de escritório, toda essa sociabilidade inebriada que é apenas o contrário da angustiada solidão dos átomos metropolitanos. Afinal nada disto é necessário quando o estado de necessidade se manifesta. Agradeçam-me a mim o teste da verdade que vão passar nas próximas semanas: vão finalmente viver a vossa própria vida, sem os milhares de subterfúgios que, mal ou bem, sustentam o insustentável. Ainda não se tinham dado conta que nunca tinham sido capazes de instalar-se na vossa própria existência. Estão entre caixas de cartão e não o sabiam. Agora vão viver com os vossos entes queridos. Vão viver em casa. Vão parar de estar em trânsito rumo à morte. Podem odiar o vosso marido. Podem odiar os vossos filhos. Podem ter vontade de fazer explodir o cenário da vossa vida quotidiana. A verdade é que, já não estavam neste mundo nessas metrópoles de separação. O vosso mundo já não era habitável em nenhum dos seus pontos, se não em fuga constante. Tinham de se atordoar com o movimento e a distração à medida que o hediondo ganhava terreno. E o fantasmagórico reinava entre os seres. Tudo se tinha tornado tão eficaz que já nada fazia sentido. Agradeçam-me por tudo isto e sejam bem-vindos à terra!

Graças a mim, por um tempo indefinido, não trabalharão mais, os vossos filhos não irão mais à escola, e ainda assim será o oposto de férias. Férias é aquele espaço que deve ser preenchido a todo custo enquanto se espera pelo ansiado retorno ao trabalho. Mas este espaço que se abre diante de vós, graças a mim, não é um espaço delimitado, é uma imensa abertura. Eu vim para vos perturbar. Nada vos garante que o não-mundo de antes vai voltar. Talvez todo este absurdo lucrativo chegue ao fim. Se vocês não forem pagos, o que pode ser mais natural do que deixar de pagar a renda? Porque é que alguém que não pode mais trabalhar deve continuar a pagar prestações aos bancos? Não é suicida viver onde nem cultivar num jardim se consegue? Não é porque vocês não têm dinheiro que não vão comer, e quem tem o ferro tem o pão, como Auguste Blanqui costumava dizer. Agradeçam-me: coloco-vos ao pé da encruzilhada que tacitamente estruturou a vossa existência: economia ou vida. A decisão é vossa. O que está em jogo é histórico. Ou os governantes vos impõem o seu estado de excepção ou vocês inventam o vosso. Ou vocês se apegam às verdades que estão a vir a lume ou colocam a cabeça no cepo. Ou vocês aproveitam o tempo que vos estou a dar agora para imaginar o mundo do depois, a partir das lições do colapso a que estamos a assistir, ou ele será completamente radicalizado. O desastre para quando para a economia. A economia é o desastre. Esta era a tese antes do mês passado. Agora é um facto. Ninguém consegue ignorar quanta polícia, quanta vigilância, quanta propaganda, quanta logística e quanto teletrabalho será necessário para suprimi-lo.

Perante mim, não cedam nem ao pânico nem à negação. Não cedam à histeria biopolítica. As próximas semanas vão ser terríveis, esmagadoras e cruéis. Os portões da Morte estarão bem abertos. Eu sou a mais devastadora produção de devastação em produção. Estou aqui para trazer os niilistas de volta ao nada. Nunca mais a injustiça deste mundo será tão flagrante. É uma civilização, e não vocês, que eu venho enterrar. Aqueles que querem viver terão de criar novos hábitos para si próprios. Evitar-me será a oportunidade para esta reinvenção, para esta nova arte da distância. A arte de cumprimentar, na qual alguns eram suficientemente míopes para ver a própria forma da instituição, em breve deixará de obedecer a qualquer rótulo. Caracterizará os seres. Não o façam ’pelos outros’, pela ’população’ ou pela ’sociedade’, façam-no pelos vossos. Cuidem dos vossos amigos e dos vossos amores. Repensem com eles, soberanamente, uma forma de vida justa. Criem aglomerados de boa vida, expandam-nos e eu não terei poder sobre vocês. Este é um apelo não a um retorno maciço da disciplina, mas da atenção. Não ao fim do descuido, mas ao fim da negligência. Que outra forma havia para vos lembrar que a salvação está em cada gesto? Que tudo está no ínfimo.

Tive de me render às evidências: a humanidade apenas coloca as questões que já não pode mais não colocar.”[ii]


Ao personificar o tal ser sem vida como uma dialética contestadora em relação ao viver da sociedade contemporânea, o autor desse texto renova os ensinamentos cínicos de Diógenes e quase com um deboche sobre todas as nossas preocupações cotidianas. E se em algum momento tirou algum riso, fazendo-o imaginar o quão tolos parecemos, é um bom sinal. A capacidade de rir em um momento como esse, revela que ainda temos um fundo saudável e empático, mesmo que seja simpatizando ou concordando com um vírus assassino.


Outra face inquietante acerca desse momento é que podemos fazer toda a diferença para o enfrentamento da pandemia é que o melhor que podemos fazer é simplesmente ficar em casa. Quem diria, o COVID-19, que não tem vida, mas tem um sarcasmo enorme ao atacar a sociedade do espetáculo que precisa de tudo aqui, agora e com um merchandising ininterrupto. A ironia do vírus também revela a incapacidade humana do ficar sozinho, mais exacerbadamente em algumas pessoas do que em outras, obviamente a dificuldade de lidar com a solidão, ou simplesmente a necessidade de estar em conexão e contato com as demais pessoas é um fenômeno que diz respeito não somente ao momento pandêmico mas como analise das dinâmicas anteriores e posteriores, rendendo alguns bons estudos antropológicos e de comunicação, além de milhares de leves intermináveis com os melhores piores sucessos desconhecidos de um passado não muito distante.


Mas não é necessariamente sobre o curioso caso do maior isolamento conjunto do mundo e ao mesmo tempo a dependência de consumir conteúdo que esse artigo vai se debruçar, é sobre o futuro, e o ambiente pós apocalítico que iremos encontrar.

É fácil encarar a dura realidade, mais para uns do que para outros, e apegar-se a uma esperança de que “tudo isso” vai passar. E qual expectativa de fato estamos falando? O que é que vai passar? O que é a normalidade? Será que retornar à um estado anterior é um desejo bom? Será que voltar ao normal é ter realmente entendido algo sobre o que essa pandemia nos está dizendo?


Como é de se esperar, essa não é mais uma mensagem motivacional de um coach quântico de reprogramação genética, muito menos uma reflexão superficial de blogueirxs good vibes ou qualquer outra abordagem pós-moderna, pós-política ou ultra-política ou ainda um análise fria, calculista ou tecnocrática que despreza o valor das vida humanas que estão sendo tiradas. Sim, perceba novamente que aqui, não se trata de uma culpabilização simples das mortes ao vírus, como algo inesperado, determinista.


O vírus ataca fortemente os seres humanos e seu tratamento traz complicações inéditas em nível mundial. Ninguém estava preparado. Mas há uma parte importante da população, que estava ciente do que ele poderia fazer. Não, não se trata de teorias conspiratórias, informações privilegiadas ou serviços secretos de inteligência cumprindo eficientemente com seu papel. O corona vírus possui um âmbito maior do que a saúde. Há necessariamente uma relação indissociável da lógica capitalista e da racionalidade liberal.

O Capitalismo não pode ser entendido apenas como meio de operação da Economia, pois esta, é um campo de saber, e também não pode ser colocado apenas como sistema de operação, uma vez que é inseparável de um modo de racionalizar, ou seja, é um lógica de pensamento e operação, teoria e prática que vão se modificando conforme as relações sociais, ambientais e econômicas.


Ou seja, não há ruptura com um sistema capitalista e manutenção das ordenações econômicas, das estratificações socais e os meios de exploração e fronteiras do ambiente.

A lógica capitalista, entretanto, não é hegemônica sozinha. É pautada e permeada pela racionalidade liberal, ou seja, à defesa das liberdades individuais, da livre inciativa e do livre mercado.


Propositalmente, para a infelicidade dos camaradas anarquistas, tais formulações foram recortados da formação dos Estados ou reconhecimentos enquanto população, essas estruturas de organização política ou social são independentes do capitalismo ou da racionalidade liberal, desde que, estejam livres e não capitaneadas pelos interesses desses agentes. (Para exercitar a filosofia de Diógenes)


Enquanto o leitor mais atento, acostumado aos mecanismos machadianos de leitura, esse já percebeu a ligação e correlações que essa reflexão busca fazer, para os demais, seguem as considerações:

Estado e sociedade, são construções, são constituídos.


Eles reproduzem as interações sociais cotidianas, e, portanto, caso não haja um movimento anticapitalista, emancipador da figura humana, organizações coletivas e autogeridas, é fácil apenas reproduzir “tudo isso” que está aí.


Não é o objetivo desse texto fazer uma regressão histórica precisa sobre a construção e constituição da presente hegemonia do capital, sua permeabilidade e capilaridade nas relações íntimas sociais que excluí as características mais célebres da existência humana: a solidariedade, a vida coletiva em sociedade, e a capacidade reflexiva.


É ainda preciso ressaltar que essa lógica capitalista e racionalidade liberal não são imposições teóricas-acadêmicas, pacificamente difundidas. São resultado de séculos de exploração, dominação e violência, propaganda e difusão de seus ideais meritocráticos, misóginos, raciais, LGBTQfóbicos e xenófobos. A luta de classes não é pacífica, não é um debate de ideias, não é um outro lado de uma mesma moeda.


Enquanto uns fazem o esforço de conservar “tudo isso aí”, outros fazem força pra apontar os erros que levaram a esse colapso. E no meio dessa briga, há uns sorrateiros, que disputam o futuro(banqueiros, CEO’s da tecnologia, empresários das clouds que nada produzem).


Não se trata de ser apenas contra, não se trata de identificar exatamente onde é o erro. A intenção não é um capitalismo mais “verde, inclusivo ou consciente”. Não o é, pois, não há capitalismo que vença as desigualdades, não há capitalismo que seja libertador, não há capitalismo que seja responsável com o meio ambiente, não há capitalismo que trata a humanidade senão pelo consumo.

Favela de Paraisópolis, São Paulo - Foto: Tales Ferretti 2018

Nunca houve tanto dinheiro circulando, nunca houve tantos bilionários, nunca os bancos lucraram mais, nunca fomos tão conectados e nunca houve tanto conhecimento agregado. E o que temos feito com tudo isso mesmo?


Não falta dinheiro, não falta solução técnica, não falta comunicação.


Chega-se a Lua, explora-se o Espaço, mas ainda a fome mata, mas ainda falta casa, mas ainda falta água.


Não é uma questão de falta de recursos, sejam eles econômicos, naturais ou humanos. Falta-nos é empatia.



Vale lembrar que a Faculdade de Saúde Pública da USP, soltou uma nota à imprensa dando orientações e reflexões sobre quais são os pontos necessários de fortalecimento nesse momento e, explicam que não há antagonismo entre o combate ao Covid-19 com isolamento social horizontal e a proteção da economia. Desse modo vale ressaltar:


“Não há contradição entre proteção da economia e proteção da saúde pública. A recessão econômica decorrente da pandemia será global e já é inevitável. Medidas de proteção social, especialmente o provimento de renda mínima para trabalhadores informais e complemento de renda para populações vulneráveis, a exemplo do que outros países estão fazendo, devem ser adotadas imediatamente. Esta proteção econômica é um dever do Estado que garantirá tanto a subsistência dos beneficiários como a preservação de um nível básico de consumo, protegendo a vida e a economia, inclusive os pequenos comércios.”[iii]


Nesse momento, observa-se então que não há, com exceção dos perversos lunáticos, manifestações contrárias à esse entendimento, mas também não quem endosse, factualmente o desenvolvimento de medidas eficazes contra os efeitos sociais da paralisação e isolamento social. O que leva diretamente ao ponto no qual trata-se toda a reverberação do corona vírus: Parou a máquina econômica. Pausou o tratamento do ser humano como mais uma engrenagem do sistema. Porém, qualquer solução que se adote agora, há o temor, dos poderosos, de que seja concreta a mudança do paradigma. Que haja um desequilíbrio desfavorável para os donos do capital. Há um medo real de que essa pausa, na exploração humana, nos mais diversos postos de trabalho, dos mais especializados aos mais braçais cause de fato uma brecha para a ruptura do complexo sistema financeiro mundial, e que talvez não haja mais volta para esse modelo, antigo, velho, decadente e de crises cíclicas que consome mais e mais vidas, famílias e a integridade da humanidade enquanto existência, mesmo que efêmera neste planeta. Não é uma opção por algo coletivo e comum em detrimento do individual, mas é a simples escolha de que é inadmissível a miséria do outro para o próprio conforto. Portanto há uma única e clara questão a ser feita: é possível desejar a volta da “normalidade”?


Eu espero que não.


Espero que seja tudo diferente.



Referências:

[i] Antonio Gramsci (1891-1937), autor de Cadernos do Cárcere movido pelo "pessimismo da inteligência e o otimismo da vontade" -o "mote" da série de 32 livros que compõem os Cadernos do Cárcere-, esse intelectual nascido na Sardenha, de origem proletária, deixou uma obra que revela-se cada vez mais necessária para analisar a conjuntura contemporânea e as dinâmicas hegemônicas; [ii] Texto “O Monólogo do Vírus” de autoria desconhecida foi acessado em 20/04/2020, em: https://lundi.am/Monologo-do-virus ; [iii]Nota à Imprensa da Congregação da Faculdade de Saúde Pública da USP sobre a evolução da pandemia de Covid-19 no Brasil” acessada em 30/03/2020 em: https://www.fsp.usp.br/site/noticias/mostra/19357

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