• Tales Ferretti

a cidade não existe

Parece uma afirmação estranha ou descabida não é mesmo?


Porém, vejamos como aplicar isso num contexto coerente:

“A cidade enquanto tal não existe. Existem diferentes e distintas formas de vida urbana.”

Massimo Cacciari.


Essa interpretação, agora mais coerente mais ainda escassa é desenvolvida no livro A Cidade, do autor acima citado, e isso nos leva diretamente as origens etimológicas das palavras que designaram cidade nas civilizações, aliás, não somente cidades, mas de fato o conjunto construído do urbano e as aglomerações de pessoas que ali viviam, passavam ou de alguma forma interagiam naqueles territórios.


Parece que é uma divagação sem um sentido claro ao arranjar diversos sinônimos para a ocupação urbana, mas ao aprofundar cada uma em sua definição é possível discorrer dos vários sentidos políticos da cidade em seus contextos diversos.


“Na civilização grega, a cidade é fundamentalmente a unidade de pessoas do mesmo génos, e portanto consegue-se perceber como a pólis, ideia que remete para um todo orgânico, antecede a ideia de cidadão. Em Roma, pelo contrário, desde as origens – e o próprio mito fundador romano o diz – a cidade é confluência, convergência de pessoas muito diferentes no que toca a religião, etnias, etc., e que só concordam ente si em virtude da lei. [...]
Roma é fundada pela obra concordante de pessoas que haviam sido, inclusivamente, expulsas das suas cidades, ou seja, por exilados, errantes, refugiados, proscritos, e que confluem para um mesmo lugar fundando Roma.’’

Massimo Cacciari.



Essas diferenças na concepção de reunião de pessoas e decorrentes disso as noções de cidadania e pertencimento se revelam de não somente grande importância e impacto nos dias atuais, mas de como são dados os tratamentos jurídicos nas nações.


Pólis vs. Civitas


Aliados às diferentes concepções começa a vigorar dilemas próprios à expansão das cidades, em paralelo à própria expansão do Império Romano. A cidade então tem uma dinâmica própria, é móvel. Essa característica se revela como um dilema ou impasse ao analisar Platão e Aristóteles: torna-se um problema dramático a pólis não se alargar em demasia; se se alargava demasiado, como conseguiria manter-se enraizada no seu génos?


Essa problemática evidencia-se em República, e nas Leis de Platão, já em Aristóteles, em Política, emergindo a temática de como manter as características espacialmente controláveis da pólis, caso contrário, as definições que ambos defendem, ruiria.


Enquanto isso, a característica de gênese da civitas era crescer. Não existem que não seja dinâmica, que não se dilate, que não [de-lire] – a lira é o sulco, sinal que delimitava a cidade, portanto delírio significa sair da lira, ultrapassar os limites da cidade.



Agora, compare esses últimos conceitos com as ocupações irregulares periféricas, tratadas por muito tempo como locais de não-cidade, e aí se revela o imenso preconceito e por que não, escolha politica em não reconhecer um fenômeno urbano. E como isso afetou e ainda afeta as políticas urbanas de assentamento, reassentamento e regularização que temos hoje. Seria imprudente também não considerar em que condições essas ocupações ocorreram, muitas vezes induzidas e orquestradas por logicas perversas, direta ou indiretamente. Mas também é preciso ressaltar toda a problemática ambiental e o custo para toda a cidade de atuar|manter|remover essas ocupações e ainda relembrar a anuência do poder público enquanto essas ocupações ocorreram.


Retornando a temática das gêneses e concepções, as cidades num momento posterior viram o lugar do negotium, ao mesmo tempo que vão se consolidando como lugar para morar. Assim, ganhando novas funções, aliando ainda mais a questão das localizações e referências geográficas, a complexidade do meio urbano vai se concatenando em diversas formas.

De modo geral, uma dualidade se apresenta como a mais forte: se por um lado é o conceito de concepção de cidade como local, lugar de pertencimento e reconhecimento, acolhedora, onde residir e seus afetos; por outro também cresce a ideia de cidade como máquina, funcional, eficiente, instrumento que nos permite com o mínimo de impedimento, ou seja, facilitadora de fazer nossos negócios.


Essa dinâmica se mantém e demora a ter evoluções grandes ou revoluções, pelo menos no contexto ocidental. E assim, numa inércia, sem julgamentos de valor se isso foi desenvolvimento ou não, as cidades se mantiveram em um crescimento linear de funções e complexidades até os primórdios da globalização. O contexto das mudanças econômicas, associadas as cidades industrias e seu desenrolar no território merecem estudos separados e de grande profundidade, o qual abordaremos em artigo futuro, com o perdão do lapso temporal existente, mas necessário para o refletir sobre os aspectos almejados, pulamos para um novo tempo histórico na pós-modernidade. Nessa conjuntura temos uma nova pergunta, uma vez que a reunião de trocas, comércios e moradias irá passar por transformações inéditas na História, assim passamos para o séc.XXI


Então, o que pedimos da cidade?


“O crescimento urbano acelerado tem se dado em um contexto histórico sem paralelo de globalização econômica e financeira, aumento vertiginoso das desigualdades socioeconômicas, movimentos migratórios recordes e agravamento das crises energética e ambiental, e tem gerado profundas crises sociopolíticas e jurídicas. No contexto da chamada economia pós-industrial, as cidades tem servido não apenas como palco da produção capitalista, mas cada vez mais como o próprio objeto dessa produção: nunca se ganhou tanto com transações imobiliárias, e a crescente mercantilização das cidades tem levado a valores recordes na formação dos preços de terras e alugueis.”

Edésio Fernandes.


Como se pode ver, as logicas aplicadas na transformação da cidade medieval em cidade industrial é análoga ao processo de modificação da cidade pós-industrial em cidade moderna e por consequência, da moderna em cidade contemporânea dominada pelo capital de mercado transnacional.


Ainda na mesma concepção, Edésio afirma: Valores de troca imperam sobre valores de uso, especulação se impõe sobre produção, e direitos individuais ignoram direitos sociais e coletivos.


O retrato atual são crises de cunho urbano, de cidades, decorrentes das urbanizações precárias, rápidas e explosivas, que deixaram o legado de cidades improdutivas, ineficientes, estagnadas, imóveis, poluídas, perigosas, engarrafadas, fragmentadas e injustas.

As noções de cidade podem invocar as mais diversas realidades, e considerando as próprias experiencias e tempos vividos, cada um tem sua identidade citadina. Porém é inegável que associado ao advento da metropolização, do espraiamento e conurbação, voltamos ao paragrafo inicial de que a cidade não existe como tal. E sim como a percepção diversa de várias experiências urbanas.



Nesse pano de fundo, é possível afirmar uma condição comum e propriamente contemporânea: é cada vez mais complicado a vida urbana.

Se ontem era possível falar em instrumento facilitador, hoje, a ocupação urbana é um desafio. E um desafio grande, particular, que ao mesmo tempo reflete as condições globais como locais e revela problemas locais de ordem global. Nesses termos, é interessante notar também a falta de identidade da cidade, ou das experiências urbanas possíveis.


Sobre isso, Mariza Rios fala:


“ O desafio de reencontrar a identidade da cidade, que foi engolida pelas obras, pelas decisões políticas direcionadas preferencialmente para a produção econômica, para o mercado imobiliário onde o “global decide o local” porque o local é simples, não tem o conhecimento e por isso pode ser descartado, com sua identidade aparentemente, desaparecida, pode ser inovadora para o desafio de uma cidade onde o bem viver ocupa a primazia do desenvolvimento e da sustentabilidade”

Nesse aspecto, é impossível desassociar as noções de função social da propriedade e da gestão democrática da cidade. São conceitos estruturadores para um processo internacional crescente de construção jurídica e sociopolítica da temática em volta do “Direito à Cidade”.


Henri Lefebvre é essencial ao debate contemporâneo sobre essa temática e afirma: “na direção da entrada para a prática de um direito: o direito à cidade, isto é, à vida urbana, condição de um humanismo e de uma democracia renovados” surgindo como norteador para a aproximação da cidade Real em relação à Ideal.




Considerando a transdisciplinaridades da cidade e seus agentes, pode-se também simplificar que a vida urbana é aquilo que se permite fazer nos territórios, de que modo e como são compartilhados. Tais atos experienciados na urbanidade são vivencias pessoais, mas que dependem de uma série de códigos condutores.


Então é possível promover cidades inclusivas, justas, eficientes, livres partindo dos valores comuns, aliados aos diversos campos e pautados por arcabouços jurídicos-urbanísticos que possibilitem o melhor desfrute, ordenamento e busquem combater a exploração indevida das riquezas e facilidades urbanas em função de uma sociedade mais participativa e atuante.


Só que isso é feito com debates, discussões, pautas, ideias e ideais, e precisamos divulgar essas questões. É o futuro de nós mesmos que está em jogo. Então vamos melhorá-lo?!


Referências Bibliográficas:

  • 1-CACCIARI, Massimo. A Cidade. GG, Barcelona- 2009.pág 9.

  • 2- CACCIARI, Massimo. A Cidade. GG, Barcelona- 2009.pág 11.

  • 3-COSTA, Beatriz. FURQUIM, Claudia. RIOS, Mariza. FERNANDES, Edésio. A cidade real e a cidade ideal: uma reflexão transdisciplinar. Del Rey, Belo horizonte- 2013.pág 10.

  • 4-COSTA, Beatriz. FURQUIM, Claudia. RIOS, Mariza. FERNANDES, Edésio. A cidade real e a cidade ideal: uma reflexão transdisciplinar. Del Rey, Belo horizonte- 2013.pág 7.

  • 5-COSTA, Beatriz. FURQUIM, Claudia. RIOS, Mariza. FERNANDES, Edésio. A cidade real e a cidade ideal: uma reflexão transdisciplinar. Del Rey, Belo horizonte- 2013.pág 12.

  • 6-LEFEBVRE, Henri. O direito à cidade. Centauro, São Paulo-2001.pág 7.

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© 2019. Baleia Urbana por Tales Ferretti